domingo, 4 de setembro de 2011

QUANDO SE AMA - ACONTECE POESIA

AMAR...

É gostar e ter, é sonhar e convencer.
É sofrer sem saber, é correr mesmo sem o ter.
É a razão do seu ser, é a angústia de o crer.
É a desilusão ao saber, é o medo de o perder.


GOSTAR...

É confundir o imaginário, é pensar com alegria.
É pensar no seu diário, é escrever a fantasia.
É acreditar no secundário, é ver tudo com magia.
É a ilusão do terciário, é o esfumar com cortesia.


ACREDITAR...

È ter um grande amor, é nele ver o seu futuro.
É sofrer sem grande dor, é pensar que está seguro.
É ver tudo em seu redor, é o Sol, a Lua e o escuro.
É pensar no Redentor, é voar com seu amor puro.      

A.Sanches
Agosto, 2011

QUANDO SE AMA - ACONTECE POESIA

CHAMOSINHOS MEU AMOR

Minha terra é Chamosinhos,
que sempre trago no coração.
Com apenas sete caminhos,
e um largo para animação.

Tem um Cruzeiro no ar,
que é a nossa devoção.
Está virado para o Mar,         
não quer São Pedro na Mão. 

Dizem com desdém e desagrado,
que p’rá Galiza está virado.                 
Zangou-se com São Pedro,
por causa do São Tiago.

Tem o Rio chamado Minho,
com os pescadores a navegar.
Tem as terras do rei linho,       
tem as festas do espadelar.     

Teve o tio Joaquim Ferrador,
e a Tiana Maceiras também.               
Tem gente de grande esplendor,
abençoada terra que filhos tem.

Tem as vinhas do verdinho,                 
e campos de   milho também.
Tem as festas do São Martinho,
que nas desfolhadas convém.

Tem Novenas, Missas e Sermões,
para os livrar do inferno.
Tem as épocas dos serões,
nas noites frias do Inverno.
                                                         
Tem a Fonte ao pé da linha,
que centenas de anos tem.
Brota água cristalina,
que já não serve a ninguém.

A.Sanches
Agosto, 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

HOJE É O DIA DA CRIANÇA.

No meu tempo de criança, não havia um único dia que não fosse seu:
Era a manhã para ir à escola.
Era a tarde a para ir pastar as vacas.
Era ao lusco-fusco  para apanhar erva
Era a noite para apanhar uma sova.
Enfim: no meu tempo as crianças tinham sempre um dia para tudo.
Isto... quando não era tudo no mesmo dia.
No entanto, bem ou mal, todos os dias havia alguma coisa para comer.

Hoje festeja-se o Dia da Criança.
Felizmente que a maior parte das crianças de hoje já são tratadas como tal.
No entanto e bem perto de nós, há crianças que que são muito mal tratadas.

Por isso vou dedicar a todas as crianças do mundo este POEMA:


Sorrisos de criança são mel
Que adoça tanta vez o nosso fadário,
São pérolas, muito raras, dum rosário,
Rezado quando a vida sabe a fel.

São velas, muito brancas, dum batel
Vogando num mar calmo, imaginário,
São bálsamo p'ra dor, são um sacrário
Banhado com odor que a rosa expele.

São tudo o que na vida há de melhor,
São pão, são luz, são água de beber,
São estrelas que eluminam nossa esp'rança

Os risos desses anjos são de amor.
E eu choro meu bom Deus, só por saber
Que existe quem mal trate uma criança.


Camões.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

OLHANDO O MEUS PAÍS

O OVO

Na minha infância e até aos treze anos de idade, eu relacionava-me com os trabalhos de agricultura. No Lugar de Chamosinhos, à excepção de meia dúzia de homens que trabalhavam nas fábricas de serração, toda a gente trabalhava no campo. Como a minha mãe não tinha campos próprios para trabalhar, era convidada para trabalhar nos campos dos outros.Certo dia a Tia Ranhada chamou a minha mãe e outros, para a execução de várias tarefas: A minha mãe foi incumbida de cavar a vinha no lugar e depois, fazer o almoço para todos. Como sempre, quando a minha mãe trabalhava em casa da Tia Ranhada, eu era o convidado especial, por isso, todo o tempo que ela estava na Tia Ranhada eu andava por ali. Às vezes, sentava-me na eira a brincar com os pintainhos: Atirava-lhes alguns grãos de milho que ia buscar ao caniço. Depois, e enquanto eles picavam no chão todos desembaraçados a engolirem o milho, eu tentava apanhar um ou outro que estava mais distraído mas..., logo a mãe galinha se impunha e, sem medo, mandava-se a mim, mais parecendo um galo assanhado pondo-me em ‘sentido’.


Outras vezes, entrava no caniço e punha-me a espreitar pelas velhas ripas de madeira a chamar pelas galinhas, imitando a Tia Ranhada: “venham cá minhas meninas!... Venham cá!...”. Depois, era ver elas a aparecerem, vindas de todos os lados em grandes correrias em direcção ao local habitual que era a porta da cozinha. Mas, como não viam a Tia Ranhada e a porta estava fechada, ficavam por ali desorientadas correndo noutras direcções à procura do chamamento. Galinhas em casa da Tia Ranhada não faltavam.

Por isso, e na falta de outros entretenimentos, era com elas que eu me divertia. Ela tinha tanto amor às galinhas que raramente comia alguma. Eu nunca soube o que ela fazia a tantas galinhas. Certa vez estava eu sentado mesmo no meio da eira e, lá vem ela do lado do lugar com o avental cheio de qualquer coisa que não era milho. Assim que chegou à porta da cozinha e lá vem a cantilena: ‘Venham cá minhas meninas!... Venham cá...’.Num ápice ficou rodeada de galinhas por todos os lados.

Quando verificou que já lá deviam estar todas, despejou o produto que tinha trazido por cima delas e, o grande rebuliço começou. Umas a passarem por cima das outras empurrando-se mutuamente cacarejando todas ao mesmo tempo, era ver quem comia mais depressa. No entanto e no meio delas, fazendo como que um pequeno círculo, estavam dois ou três galos que disputavam o alimento com as galinhas.

Ai daquela que se chegasse ao pé deles levava logo a bicada respectiva na cabeça.Enquanto as galinhas comiam, a Tia Ranhada mantinha-se ali de pé no meio delas toda sorridente a ver toda aquela azáfama e burburinho. De repente, e com o aproximar de uma determinada galinha com penas diferentes das outras, ela baixou-se e apanhou-a pelas asas. Logo pensei cá para os meus botões: “Hoje, o almoço vai ser galinha!... Que bom!...”. Mas não, o almoço não foi galinha.

Qual o meu espanto, vejo a Tia Ranhada a passar a galinha para a mão esquerda e muito descontraidamente, fez deslizar a mão direita pelo lombo da galinha até ao rabo. Ali, e sem escrúpulos nenhuns, enfiou o dedo médio pelo rabo dentro da galinha, depois de o tirar, subiu a galinha até ao ângulo visual e, tal como se estivesse a falar para alguém que a entendesse, disse-lhe: “Bá... Já está na hora de ires pôr o ovo!... Mas não o comas... ouviste?...”. Dito isto, ala a galinha para o meio do chão.

Claro que a galinha não ligou nenhuma ao que ela lhe disse e, tal como as outras, continuou a picar no chão até este ficar completamente limpinho. Como a galinha era diferente das outras e eu até ouvi a recomendação, fiquei atento à sua postura. Passado pouco tempo vejo a galinha a correr em direcção ao galinheiro onde a esperava um ninho com um ovo todo ‘cagado’, que estava lá há mais de quinze dias e que, segundo ouvia dizer, servia de chamariz para a postura dos ovos naquele local. Sem dar nas vistas da galinha, lá fui espreitar para ver o que ela ia fazer depois de pôr o ovo. Uns minutos depois a galinha levantou-se, saiu do galinheiro e, como que a mostrar a sua alegria por ter posto um ovo, lá foi ela toda contente a cacarejar pela quinteira fora.

Logo que a Tia Ranhada ouviu o cacarejar da galinha, não perdeu tempo e foi ao galinheiro buscar o ‘ditoso’ ovo. Quando saiu do galinheiro ela trazia o ovo na mão mas, de repente lembrou-se de qualquer coisa, meteu o ovo no bolso de uma camisola velha que trazia vestida e, em vez de ir arrumar o ovo a casa, dirigiu-se ao caniço. Como os pintainhos andavam dispersos no meio da eira, ela pegou numa vergasta e pôs-se ali a tentar juntá-los não sei para quê. Só que os pintos não lhe obedeciam e quando ela se deslocava para um lado todos fugiam para o outro. Mas a Tia Ranhada queria que eles lhe obedecessem e por isso, usava todos os estratagemas para tal mas... Os pintos não lhe tinham respeito nenhum e por isso, quanto mais ela tentava juntá-los mais eles se dispersavam. Andava ela naquela azáfama e, sem saber como, o raio do ovo que tinha no bolso da camisola saltou e estatelou-se no meio da eira, mostrando aos pintainhos o quanto de amarelinho era a sua gema.

Os pintos ao verem tal petisco estiveram-se nas tintas para a Tia Ranhada. Rapidamente se uniram e fizeram daquele momento o grande festim do ovo acabadinho de pôr. O mais incrível foi os lamentos da Tia Ranhada. Não era pelo ovo partido mas sim, pelo hábito que aquele momento poderia incutir naqueles pequerruchos que se deliciavam com um ovo pela primeira vez. Ao ver a cena em que os pintos se atropelavam uns aos outros para dar a sua picadela no sítio onde o ovo se partiu, a Tia Ranhada pôs as mãos nos queixos e disse:

Deixem-se estar meus meninos que amanhã já não comem mais nenhum, podem crer.

Será que os pintos enjoaram os ovos?...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

A PÁSCOA EM CHAMOSINHOS

Na Quinta-feira da Semana Santa, por volta das 11 horas da manhã, tocava o sino a rebate anunciando a Morte do Senhor. As fábricas da Veiga e do Monte associavam-se a este sinal através dos seus apitos que, juntos, se ouviam em toda a Freguesia. Ao fim de quinze minutos, entravam em silêncio total. Este silêncio era mantido por todos, até à manhã de Sábado.

SÁBADO DE ALELUIA.
Voltavam a tocar os Sinos e as fábricas. Mas o tom agora já era de alegria e festa. Anunciava-se assim a RESSURREIÇÃO DE CRISTO, nos anos 50. À Época, a Páscoa em Chamosinhos era vivida com muita Fé e Alegria. No Sábado de Aleluia, havia grande empenhamento das donas de casa em preparar as suas habitações para receber o Sr. Padre com a Cruz ricamente enfeitada. Ricos e pobres, todos abriam as portas à Cruz. Os mais abastados presenteavam o Senhor Padre com o que podiam. Dos pobres, o Senhor Padre não esperava nada, porque nada tinham. Mas até parecia que, quando entrava nessas humildes habitações, a Bênção que ele dava tinha mais significado.

Para a canalha, Páscoa era o tempo das amêndoas. A Visita Pascal a Chamosinhos durava um dia e começava na Ponte. Sempre que conseguia, eu acompanhava a Cruz a todas as casas. O meu objectivo eram as amêndoas. A última habitação a ser visitada era a da tia Constância. Era nesta casa que o Sr. Padre descansava um pouco num grande cadeirão que sempre o esperava no final do Compasso. Também era na casa da Tia Constância que os pescadores de Chamosinhos convidavam o Senhor Padre a levar a Cruz aos Montorros para ali Abençoar barcos e redes.

Depois embarcava no Carocho maravilhosamente engalanado que, na companhia de quase todos os barcos dos Montorros, se afastavam das margens do Rio Minho. No ponto certo, os pescadores lançavam as redes à água. Depois da volta ao meio do Rio, voltavam. Chegados a terra firme, era ver a maior parte das pessoas que acompanhavam o Compasso até aos Montorros, a puxar as redes e ver o que nela tinha sido pescado. O resultado da pesca era ali leiloado e revertia totalmente para a Igreja.

Era um momento de alto significado que, a Igreja e os habitantes do Lugar de Chamosinhos, viviam num local Paradisíaco: MONTORROS.

E hoje!... Será assim?...  Hoje não há Sinos a tocar às 11 horas de Quita Feira Santa. Também não se ouvem os apitos das Fábricas que, por sinal, só existe uma e já deve ter perdido o apito. Nas habitações, na sua maioria reina a indiferença. O Sr. Padre já não vai com a Cruz a Chamosinhos. Manda um representante. A maioria das habitações já não abre as portas à Cruz. Até a canalha já não sabe que, Páscoa quer dizer amêndoas.

Em suma:  O Largo de Chamosinhos perdeu na totalidade todo o entusiasmo Pascal que era vivido noutros tempos.
Porque será?...

quinta-feira, 24 de março de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

OS GIRINOS

Quanto eu me entretinha nas poças do Feal!...
Nas poças onde nascia a água, apareciam os minúsculos peixinhos que, a cada dia que passava, até me parecia que cresciam o dobro. Eram os bogardos nas maternidades. Mais afastado da zona do nascimento das águas, existiam outras poças que, dado ao local onde se encontravam, estavam sempre cheias de água. Essas poças eram de pequena profundidade e nelas apareciam de vez em quando uns peixinhos muito esquisitos. Eram pretos e espalmados, mais parecendo uma palmatória. Tinham um pequeno rabo que chegava muito bem para se afastarem de algum intruso. Viviam no fundo da poça e andavam sempre de um lado para o outro. Para os apanhar eu utilizava o esquema que utilizava para apanhar os peixinhos. Punha a mão aberta no fundo da poça e, era ver os pequerruchos a passarem sem medo por cima dela.

Assim, era só fechar a mão e, lá vinham três ou quatro bebés a fazerem tudo para se esquivarem por entre os meus dedos. Sem água na mão, os meninos ficavam muito quietinhos, mexendo apenas o minúsculo rabo. Essa atitude causava-me cá uns arrepios que não perdia tempo e logo os mandava de volta para a sua maternidade. Na época certa, as minhas brincadeiras com os girinos eram constantes. Certa vez encontrou uma poça onde os meninos já tinham crescido bastante. Tinham a cabeça grande e olhos bem definidos. Duas patitas pequenas e um rabo ‘exagerado’ e espalmado. Os meus amigos diziam que eram os “cabeçudos”. Não sei muito bem porquê mas, nesta poça, os girinos não apanharam lá a minha mão. No entanto, tinha uma vontade enorme de levar dois ou três para casa.

Com uma ajudinha do Necas, eu consegui meter no bolso dos meus calções, três girinos. Como os calções eram bastante largos, eu sentia a revolta dos prisioneiros bem junto “daquilo” que sempre tive muito espeito. Nesse dia, para não incomodar os meninos que viajavam no meu bolso, decidi não correr até casa como era costume. Embora fosse devagarinho para não os incomodar, os meninos não paravam. Ainda não tinha chegado à casa do Tio Zé do Agostinho, já ia naquela de: Ou se acomodam, ou saltam daí para fora não tarda nada. De repente, tive a sensação de que um deles me mordeu. Assim, rapidamente me refugiei num terreno ali existente, sentei-me no chão e toca a tirar os calções para pôr fora dos meus bolsos aqueles malditos.   

Com tantas voltas e apertos, quando consegui virar o bolso e sacudir os meninos para o chão, estes já não se mexiam. No dia seguinte lá fui novamente ver aquela ‘canalha’. Nesse dia levava numa saca de pano a minha tigela das migas. Quando cheguei, ao tirar a tigela da saca, fugiu-me das mãos e, partiu-se toda. Sem saber como ia resolver o problema, peguei nos cacos da tigela, coloquei-os na saca, e voltei para casa sem os girinos, e com a tigela partida. Quando lá cheguei dou de caras com a minha mãe que, ao ver-me com a saca nas mãos, logo vieram as perguntas. “Onde fostes!... O que é que trazes aí?... Para que foi a saca?... Tanta pergunta e eu sem ter nenhuma resposta para lhe dar. Fiquei ali pasmado à entrada de casa a olhar para ela. Nem entrava nem fugia.

“Então!..., estás parvo?... O que é que trazes aí?...”. Como tinha de responder disse-lhe: -É a minha tigela das migas!...Ao ouvir tal afirmação, deu uma grande gargalhada. Depois virou as costas, pegou no cântaro e foi buscar água à fonte. Para quem esperava uma tareia, fiquei radiante. A minha mãe estava muito bem disposta. Quando ela voltou e viu os cacos da tigela ficou fula. “Amanhã não vai haver migas! Se as quiseres comer, vais ao monte e trazes de lá uma cunca do breu. (As cuncas do breu eram tigelas de barro encarnado afuniladas que, na época da extracção da resina, eram colocadas nos pinheiros exactamente no sítio onde era golpeado, e serviam de reservatório do breu que ia saindo a conta-gotas da árvore).

“Comer numa cunca!..., nunca?...”. Pensava eu. No entanto tive uma ideia. “Oh mãe, eu posso comer as migas na tua tigela, não posso?...”. Não, não. Nem penses. Se queres comer as migas vais às cuncas, doutra maneira não há migas. E ainda por cima, para o dia seguinte havia açúcar para as migas. Então lembrei-me que o meu amigo Necas, tinha lá na cozinha dele muitas tigelas. Por isso, sai muito sorrateiramente e fui até casa dele. Quando ia bater à porta esta abriu-se e vejo sair o Pai dele que, ao ver-me ali, perguntou: “Queres alguma coisa?...”.-Não Tio Manuel. Não quero nada!...“Então, se não queres nada o que vens aqui fazer?...”. Só vinha ver se o Necas estava em casa!...

“Está, está. Entra que ele está no cabano!...”.Quando lá cheguei, estava ele a arranjar a empalhada para as vacas. Depois de lhe ter contado o que me aconteceu, pedi-lhe para ele me emprestar uma tigela, dado que não tinha nenhuma para comer as migas no dia seguinte. O Necas lá foi todo lampeiro a casa, entrou na cozinha e, toca a pendurar-se numa prateleira para chegar ao sítio onde se encontravam as ditas tigelas. Embora o Necas não fosse muito pesado, a prateleira onde se agarrou veio por ali abaixo com ela, todas as tigelas ali depositadas. O barulho foi tal que, o Tio Manuel que estava no largo do Cruzeiro ouviu. Intrigado, logo foi a casa ver o que se tinha passado. O Necas, quando ouviu a porta da cozinha a abrir-se, fugiu para o cabano.

Assim que o Tio Manuel entrou na cozinha e ao ver aquela loiça toda partida no meio do chão, começou a falar alto: “Mas quem foi que fez isto?...”. Mais umas interrogações sem resposta e, por fim, alguns minutos depois, chamou pelo Necas para o ir ajudar a limpar aquilo tudo. Foi assim que eu aproveitei uma tigela que, embora tivesse uma pequena lasca, me serviu para comer as minhas migas no dia seguinte. Depois das migas comidas e antes do regresso da minha mãe, lá fui novamente ao Feal buscar meia dúzia de girinos para brincar com eles em minha casa. Quando cheguei, coloquei a tigela no chão da sala e, com medo que algum deles me mordesse os dedos, fui buscar um pauzinho. Depois, e com a tigela no meio das minhas pernas, fiz passar as “Passas do Algarve” àqueles figurões que, a todo o momento tentavam fugir dali.

Quando a minha mãe chegou e me viu no meio do chão a falar para os girinos, começou a ralhar comigo. Depois das ameaças passou à acção. Tirou-me a tigela das mãos, dirigiu-se à quinteira e toca a pôr os girinos a voar com água e tudo. Só que a tigela estava molhada e, quando ela fez o balanço para fazer sair a água com os girinos, não aguentou a tigela e esta foi atrás dos girinos aterrando contra um muro que servia de divisória da minha quinteira desfazendo-se na totalidade. Como depois não encontrei os girinos em lado nenhum, pensei que eles devem ter voado mais alto em direcção ao Feal.

Malditas tigelas

quinta-feira, 17 de março de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

FONTE-BOA II


Antes dos fogos assoladores originados por malfeitores devidamente pagos para o efeito que arrasaram todo o pinheiral do Baldio de Chamosinhos. Antes da ‘LIXEIRA’ chamada ‘pomposamente’ de “Aterro Sanitário” ser aceite de braços abertos por quem nada tinha a ver com Chamosinhos e alguns nem tão pouco com S. Pedro da Torre, o Baldio era um meio de sustentação de todo os habitantes de Chamosinhos. Fonte-Boa era o nosso Ex-líbris onde nasciam e predominavam as águas cristalinas. Ali nascia água suficiente para regar as terras dos interessados e ainda, dado à sua quantidade e pureza, chegava e sobrava para dar de beber a todos os habitantes se, na época, a Comissão de Habitantes tivesse vontade.

No meu entender, este foi o maior erro da Comissão de então. Não fosse isso e hoje por certo que o baldio de Chamosinhos não teria sido contemplado com a maior “Lixeira” ou seja, o 'Aterro Sanitário' do Vale do Minho. Para mal dos ‘nossos pecados’ o ‘Intelecto’ desta geração, não encontrou melhor sítio para fazer de Fonte--Boa uma “Lixeira” ou seja, um 'Aterro Sanitário'. Os mais ‘Inteligentes’ nestas coisas de descobrirem zonas para esconderem das populações os lixos que ela própria produz, acharam que Fonte-Boa era o sítio ideal. Estava longe das habitações, estava perto da estrada, era um sítio escondidinho e longe dos olhares indiscretos onde se podia amontoar todo o tipo de LIXO.

Enfim, eram os interesses (políticos?) em evolução. Desde sempre, notei que os grandes interesses se movimentavam no sentido de retirarem o Baldio de Chamosinhos aos seus legítimos proprietários. Nas minhas lembranças estão os graves acontecimentos no final dos anos quarenta quando a Freguesia de Vila Meã reclamava a mudança dos Marcos a seu favor. Foram muitos os que se juntaram no Feal, perto da casa de pastas do Zina, armados com foices, machados e outros utensílios para assim defenderem o pedaço que era reclamado por aquela Freguesia. Resultado: Não houve luta e os marcos foram mesmo mudados.

No início dos anos cinquenta, chegou a notícia da construção de um aeroporto no Baldio de Chamosinhos. Cheguei mesmo a ver alguns sinais dessa iniciativa: Paus com bandeirinhas, encarnadas e verdes, colocados em locais estratégicos, mostravam as delimitações do espaço que, pensavam eles, iria servir para a construção do aeroporto. Nessa época na Comissão encontrava-se um homem que se empenhou com alma e coração na defesa do nosso Baldio. Resultado: Uma pilha de paus com as bandeirinhas encarnadas e verdes agarradas arderam no meio da E.N.13 à frente de toda a gente. Quanto ao aeroporto, não se voltou a falar mas... Foi uma questão de tempo e oportunidade. De repente, uma grande parte do baldio de Chamosinhos já fazia parte do aeródromo CERVAL. Agora, e sem o mínimo de respeito pela Natureza e pelas populações das redondezes, a decisão foi tomada: Arrasar na sua totalidade toda a zona de Fonte-Boa e construir ali, uma “LIXEIRA” ou seja, um 'Aterro Sanitário'.  

Aos habitantes de Chamosinhos restou a discórdia, a contestação, a repulsa, a acção e o confronto. Mas... os “Inteligentes”, não tiveram contemplações e a ordem foi para ‘destroçar’ pela força. No meio do Baldio de Chamosinhos, pela primeira vez desde a sua existência, que conta mais de 600 anos, teve início uma “Batalha Campal” em defesa daquilo que pertence a todos os habitantes. Feridos à cacetada pelos mandantes do “Intelecto”, houve muitos. Foi, e ainda é, uma guerra sem tréguas. Na ocasião não houve mortes mas, ao longo do tempo, elas sucedem-se sem se saber porquê. Os recursos aos tribunais resultaram em nada. O mais inacreditável foi encontrarem-se no Intelecto pessoas da Freguesia que, em vez de analisarem a situação em prol de todos, impuserem a sua opinião pessoal como factos verdadeiros e, tendo grandes responsabilidades no Processo, atreveram-se a falsearem a verdade de Fonte-Boa influenciando quem tinha o poder de decisão. Fonte-Boa foi arrasada e com ela se esfumou toda a esperança de que um dia, no largo do Cruzeiro de Chamosinhos, pudesse existir um chafariz onde se poderia beber a melhor água do mundo.

Mas a situação grave não se ficou só por Fonte-Boa. A “Lixeira” ou seja, o ‘Aterro Sanitário’, rapidamente envenenou todo o lençol freático ali existente de tal modo que, uns dias depois de ter entrado em funcionamento, toda a água que chegava aos poços particulares e à fonte de Chamosinhos estava envenenada. Foi com grande tristeza que, certo dia das minhas férias ao chegar àquela fonte que durante centenas de anos deu de beber a todos os habitantes, vi um ferro espetado segurando uma tabuleta que dizia: “ÁGUA IMPRÓPRIA PARA CONSUMO”.

O objectivo da decisão foi alcançado. Conseguiram por todos os habitantes de Chamosinhos a beber água do garrafão. Extraordinário. Segundo me disseram, o acordo assinado pelo “Intelecto” tinha a duração de dez anos, no entanto, já vamos a caminho dos treze e, de encerramento, ninguém vê nada. Assim, a “Lixeira”, ou seja, o ‘Aterro Sanitário’, continua a receber todo o tipo de "Lixo" vindo ninguém sabe de onde.

Até quando?...