quinta-feira, 21 de abril de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

A PÁSCOA EM CHAMOSINHOS

Na Quinta-feira da Semana Santa, por volta das 11 horas da manhã, tocava o sino a rebate anunciando a Morte do Senhor. As fábricas da Veiga e do Monte associavam-se a este sinal através dos seus apitos que, juntos, se ouviam em toda a Freguesia. Ao fim de quinze minutos, entravam em silêncio total. Este silêncio era mantido por todos, até à manhã de Sábado.

SÁBADO DE ALELUIA.
Voltavam a tocar os Sinos e as fábricas. Mas o tom agora já era de alegria e festa. Anunciava-se assim a RESSURREIÇÃO DE CRISTO, nos anos 50. À Época, a Páscoa em Chamosinhos era vivida com muita Fé e Alegria. No Sábado de Aleluia, havia grande empenhamento das donas de casa em preparar as suas habitações para receber o Sr. Padre com a Cruz ricamente enfeitada. Ricos e pobres, todos abriam as portas à Cruz. Os mais abastados presenteavam o Senhor Padre com o que podiam. Dos pobres, o Senhor Padre não esperava nada, porque nada tinham. Mas até parecia que, quando entrava nessas humildes habitações, a Bênção que ele dava tinha mais significado.

Para a canalha, Páscoa era o tempo das amêndoas. A Visita Pascal a Chamosinhos durava um dia e começava na Ponte. Sempre que conseguia, eu acompanhava a Cruz a todas as casas. O meu objectivo eram as amêndoas. A última habitação a ser visitada era a da tia Constância. Era nesta casa que o Sr. Padre descansava um pouco num grande cadeirão que sempre o esperava no final do Compasso. Também era na casa da Tia Constância que os pescadores de Chamosinhos convidavam o Senhor Padre a levar a Cruz aos Montorros para ali Abençoar barcos e redes.

Depois embarcava no Carocho maravilhosamente engalanado que, na companhia de quase todos os barcos dos Montorros, se afastavam das margens do Rio Minho. No ponto certo, os pescadores lançavam as redes à água. Depois da volta ao meio do Rio, voltavam. Chegados a terra firme, era ver a maior parte das pessoas que acompanhavam o Compasso até aos Montorros, a puxar as redes e ver o que nela tinha sido pescado. O resultado da pesca era ali leiloado e revertia totalmente para a Igreja.

Era um momento de alto significado que, a Igreja e os habitantes do Lugar de Chamosinhos, viviam num local Paradisíaco: MONTORROS.

E hoje!... Será assim?...  Hoje não há Sinos a tocar às 11 horas de Quita Feira Santa. Também não se ouvem os apitos das Fábricas que, por sinal, só existe uma e já deve ter perdido o apito. Nas habitações, na sua maioria reina a indiferença. O Sr. Padre já não vai com a Cruz a Chamosinhos. Manda um representante. A maioria das habitações já não abre as portas à Cruz. Até a canalha já não sabe que, Páscoa quer dizer amêndoas.

Em suma:  O Largo de Chamosinhos perdeu na totalidade todo o entusiasmo Pascal que era vivido noutros tempos.
Porque será?...

quinta-feira, 24 de março de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

OS GIRINOS

Quanto eu me entretinha nas poças do Feal!...
Nas poças onde nascia a água, apareciam os minúsculos peixinhos que, a cada dia que passava, até me parecia que cresciam o dobro. Eram os bogardos nas maternidades. Mais afastado da zona do nascimento das águas, existiam outras poças que, dado ao local onde se encontravam, estavam sempre cheias de água. Essas poças eram de pequena profundidade e nelas apareciam de vez em quando uns peixinhos muito esquisitos. Eram pretos e espalmados, mais parecendo uma palmatória. Tinham um pequeno rabo que chegava muito bem para se afastarem de algum intruso. Viviam no fundo da poça e andavam sempre de um lado para o outro. Para os apanhar eu utilizava o esquema que utilizava para apanhar os peixinhos. Punha a mão aberta no fundo da poça e, era ver os pequerruchos a passarem sem medo por cima dela.

Assim, era só fechar a mão e, lá vinham três ou quatro bebés a fazerem tudo para se esquivarem por entre os meus dedos. Sem água na mão, os meninos ficavam muito quietinhos, mexendo apenas o minúsculo rabo. Essa atitude causava-me cá uns arrepios que não perdia tempo e logo os mandava de volta para a sua maternidade. Na época certa, as minhas brincadeiras com os girinos eram constantes. Certa vez encontrou uma poça onde os meninos já tinham crescido bastante. Tinham a cabeça grande e olhos bem definidos. Duas patitas pequenas e um rabo ‘exagerado’ e espalmado. Os meus amigos diziam que eram os “cabeçudos”. Não sei muito bem porquê mas, nesta poça, os girinos não apanharam lá a minha mão. No entanto, tinha uma vontade enorme de levar dois ou três para casa.

Com uma ajudinha do Necas, eu consegui meter no bolso dos meus calções, três girinos. Como os calções eram bastante largos, eu sentia a revolta dos prisioneiros bem junto “daquilo” que sempre tive muito espeito. Nesse dia, para não incomodar os meninos que viajavam no meu bolso, decidi não correr até casa como era costume. Embora fosse devagarinho para não os incomodar, os meninos não paravam. Ainda não tinha chegado à casa do Tio Zé do Agostinho, já ia naquela de: Ou se acomodam, ou saltam daí para fora não tarda nada. De repente, tive a sensação de que um deles me mordeu. Assim, rapidamente me refugiei num terreno ali existente, sentei-me no chão e toca a tirar os calções para pôr fora dos meus bolsos aqueles malditos.   

Com tantas voltas e apertos, quando consegui virar o bolso e sacudir os meninos para o chão, estes já não se mexiam. No dia seguinte lá fui novamente ver aquela ‘canalha’. Nesse dia levava numa saca de pano a minha tigela das migas. Quando cheguei, ao tirar a tigela da saca, fugiu-me das mãos e, partiu-se toda. Sem saber como ia resolver o problema, peguei nos cacos da tigela, coloquei-os na saca, e voltei para casa sem os girinos, e com a tigela partida. Quando lá cheguei dou de caras com a minha mãe que, ao ver-me com a saca nas mãos, logo vieram as perguntas. “Onde fostes!... O que é que trazes aí?... Para que foi a saca?... Tanta pergunta e eu sem ter nenhuma resposta para lhe dar. Fiquei ali pasmado à entrada de casa a olhar para ela. Nem entrava nem fugia.

“Então!..., estás parvo?... O que é que trazes aí?...”. Como tinha de responder disse-lhe: -É a minha tigela das migas!...Ao ouvir tal afirmação, deu uma grande gargalhada. Depois virou as costas, pegou no cântaro e foi buscar água à fonte. Para quem esperava uma tareia, fiquei radiante. A minha mãe estava muito bem disposta. Quando ela voltou e viu os cacos da tigela ficou fula. “Amanhã não vai haver migas! Se as quiseres comer, vais ao monte e trazes de lá uma cunca do breu. (As cuncas do breu eram tigelas de barro encarnado afuniladas que, na época da extracção da resina, eram colocadas nos pinheiros exactamente no sítio onde era golpeado, e serviam de reservatório do breu que ia saindo a conta-gotas da árvore).

“Comer numa cunca!..., nunca?...”. Pensava eu. No entanto tive uma ideia. “Oh mãe, eu posso comer as migas na tua tigela, não posso?...”. Não, não. Nem penses. Se queres comer as migas vais às cuncas, doutra maneira não há migas. E ainda por cima, para o dia seguinte havia açúcar para as migas. Então lembrei-me que o meu amigo Necas, tinha lá na cozinha dele muitas tigelas. Por isso, sai muito sorrateiramente e fui até casa dele. Quando ia bater à porta esta abriu-se e vejo sair o Pai dele que, ao ver-me ali, perguntou: “Queres alguma coisa?...”.-Não Tio Manuel. Não quero nada!...“Então, se não queres nada o que vens aqui fazer?...”. Só vinha ver se o Necas estava em casa!...

“Está, está. Entra que ele está no cabano!...”.Quando lá cheguei, estava ele a arranjar a empalhada para as vacas. Depois de lhe ter contado o que me aconteceu, pedi-lhe para ele me emprestar uma tigela, dado que não tinha nenhuma para comer as migas no dia seguinte. O Necas lá foi todo lampeiro a casa, entrou na cozinha e, toca a pendurar-se numa prateleira para chegar ao sítio onde se encontravam as ditas tigelas. Embora o Necas não fosse muito pesado, a prateleira onde se agarrou veio por ali abaixo com ela, todas as tigelas ali depositadas. O barulho foi tal que, o Tio Manuel que estava no largo do Cruzeiro ouviu. Intrigado, logo foi a casa ver o que se tinha passado. O Necas, quando ouviu a porta da cozinha a abrir-se, fugiu para o cabano.

Assim que o Tio Manuel entrou na cozinha e ao ver aquela loiça toda partida no meio do chão, começou a falar alto: “Mas quem foi que fez isto?...”. Mais umas interrogações sem resposta e, por fim, alguns minutos depois, chamou pelo Necas para o ir ajudar a limpar aquilo tudo. Foi assim que eu aproveitei uma tigela que, embora tivesse uma pequena lasca, me serviu para comer as minhas migas no dia seguinte. Depois das migas comidas e antes do regresso da minha mãe, lá fui novamente ao Feal buscar meia dúzia de girinos para brincar com eles em minha casa. Quando cheguei, coloquei a tigela no chão da sala e, com medo que algum deles me mordesse os dedos, fui buscar um pauzinho. Depois, e com a tigela no meio das minhas pernas, fiz passar as “Passas do Algarve” àqueles figurões que, a todo o momento tentavam fugir dali.

Quando a minha mãe chegou e me viu no meio do chão a falar para os girinos, começou a ralhar comigo. Depois das ameaças passou à acção. Tirou-me a tigela das mãos, dirigiu-se à quinteira e toca a pôr os girinos a voar com água e tudo. Só que a tigela estava molhada e, quando ela fez o balanço para fazer sair a água com os girinos, não aguentou a tigela e esta foi atrás dos girinos aterrando contra um muro que servia de divisória da minha quinteira desfazendo-se na totalidade. Como depois não encontrei os girinos em lado nenhum, pensei que eles devem ter voado mais alto em direcção ao Feal.

Malditas tigelas

quinta-feira, 17 de março de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

FONTE-BOA II


Antes dos fogos assoladores originados por malfeitores devidamente pagos para o efeito que arrasaram todo o pinheiral do Baldio de Chamosinhos. Antes da ‘LIXEIRA’ chamada ‘pomposamente’ de “Aterro Sanitário” ser aceite de braços abertos por quem nada tinha a ver com Chamosinhos e alguns nem tão pouco com S. Pedro da Torre, o Baldio era um meio de sustentação de todo os habitantes de Chamosinhos. Fonte-Boa era o nosso Ex-líbris onde nasciam e predominavam as águas cristalinas. Ali nascia água suficiente para regar as terras dos interessados e ainda, dado à sua quantidade e pureza, chegava e sobrava para dar de beber a todos os habitantes se, na época, a Comissão de Habitantes tivesse vontade.

No meu entender, este foi o maior erro da Comissão de então. Não fosse isso e hoje por certo que o baldio de Chamosinhos não teria sido contemplado com a maior “Lixeira” ou seja, o 'Aterro Sanitário' do Vale do Minho. Para mal dos ‘nossos pecados’ o ‘Intelecto’ desta geração, não encontrou melhor sítio para fazer de Fonte--Boa uma “Lixeira” ou seja, um 'Aterro Sanitário'. Os mais ‘Inteligentes’ nestas coisas de descobrirem zonas para esconderem das populações os lixos que ela própria produz, acharam que Fonte-Boa era o sítio ideal. Estava longe das habitações, estava perto da estrada, era um sítio escondidinho e longe dos olhares indiscretos onde se podia amontoar todo o tipo de LIXO.

Enfim, eram os interesses (políticos?) em evolução. Desde sempre, notei que os grandes interesses se movimentavam no sentido de retirarem o Baldio de Chamosinhos aos seus legítimos proprietários. Nas minhas lembranças estão os graves acontecimentos no final dos anos quarenta quando a Freguesia de Vila Meã reclamava a mudança dos Marcos a seu favor. Foram muitos os que se juntaram no Feal, perto da casa de pastas do Zina, armados com foices, machados e outros utensílios para assim defenderem o pedaço que era reclamado por aquela Freguesia. Resultado: Não houve luta e os marcos foram mesmo mudados.

No início dos anos cinquenta, chegou a notícia da construção de um aeroporto no Baldio de Chamosinhos. Cheguei mesmo a ver alguns sinais dessa iniciativa: Paus com bandeirinhas, encarnadas e verdes, colocados em locais estratégicos, mostravam as delimitações do espaço que, pensavam eles, iria servir para a construção do aeroporto. Nessa época na Comissão encontrava-se um homem que se empenhou com alma e coração na defesa do nosso Baldio. Resultado: Uma pilha de paus com as bandeirinhas encarnadas e verdes agarradas arderam no meio da E.N.13 à frente de toda a gente. Quanto ao aeroporto, não se voltou a falar mas... Foi uma questão de tempo e oportunidade. De repente, uma grande parte do baldio de Chamosinhos já fazia parte do aeródromo CERVAL. Agora, e sem o mínimo de respeito pela Natureza e pelas populações das redondezes, a decisão foi tomada: Arrasar na sua totalidade toda a zona de Fonte-Boa e construir ali, uma “LIXEIRA” ou seja, um 'Aterro Sanitário'.  

Aos habitantes de Chamosinhos restou a discórdia, a contestação, a repulsa, a acção e o confronto. Mas... os “Inteligentes”, não tiveram contemplações e a ordem foi para ‘destroçar’ pela força. No meio do Baldio de Chamosinhos, pela primeira vez desde a sua existência, que conta mais de 600 anos, teve início uma “Batalha Campal” em defesa daquilo que pertence a todos os habitantes. Feridos à cacetada pelos mandantes do “Intelecto”, houve muitos. Foi, e ainda é, uma guerra sem tréguas. Na ocasião não houve mortes mas, ao longo do tempo, elas sucedem-se sem se saber porquê. Os recursos aos tribunais resultaram em nada. O mais inacreditável foi encontrarem-se no Intelecto pessoas da Freguesia que, em vez de analisarem a situação em prol de todos, impuserem a sua opinião pessoal como factos verdadeiros e, tendo grandes responsabilidades no Processo, atreveram-se a falsearem a verdade de Fonte-Boa influenciando quem tinha o poder de decisão. Fonte-Boa foi arrasada e com ela se esfumou toda a esperança de que um dia, no largo do Cruzeiro de Chamosinhos, pudesse existir um chafariz onde se poderia beber a melhor água do mundo.

Mas a situação grave não se ficou só por Fonte-Boa. A “Lixeira” ou seja, o ‘Aterro Sanitário’, rapidamente envenenou todo o lençol freático ali existente de tal modo que, uns dias depois de ter entrado em funcionamento, toda a água que chegava aos poços particulares e à fonte de Chamosinhos estava envenenada. Foi com grande tristeza que, certo dia das minhas férias ao chegar àquela fonte que durante centenas de anos deu de beber a todos os habitantes, vi um ferro espetado segurando uma tabuleta que dizia: “ÁGUA IMPRÓPRIA PARA CONSUMO”.

O objectivo da decisão foi alcançado. Conseguiram por todos os habitantes de Chamosinhos a beber água do garrafão. Extraordinário. Segundo me disseram, o acordo assinado pelo “Intelecto” tinha a duração de dez anos, no entanto, já vamos a caminho dos treze e, de encerramento, ninguém vê nada. Assim, a “Lixeira”, ou seja, o ‘Aterro Sanitário’, continua a receber todo o tipo de "Lixo" vindo ninguém sabe de onde.

Até quando?...

domingo, 13 de março de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

FONTE-BOA  I

O Baldio de Chamosinhos tem início um pouco antes da zona da Chão. É atravessado pela E.N.13. Imediatamente a seguir à estrada, encontrava-se um grande pinheiral que se prolongava até ao fim da Quinta do Arraial lá bem para os lados de Fonte-Boa. Ali, acabava o pinheiral, mas seguia-se um grande montado composto por tojo e carrasco, salpicado por um ou outro pinheiro que tive a audácia de germinar em terrenos que não lhes era propício. Eram as leiras de todos os habitantes de Chamosinhos. Fonte-Boa situava-se no sítio denominado por Monte da Chãs, precisamente na divisória do grande pinheiral com a zona das leiras.

Quando eu comecei a ir para o monte com a minha mãe, raramente chegávamos a Fonte-Boa. Ela cortava o tojo e o carrasco onde ele existia, fazia as respectivas paveias e, como não tinha carro de bois para as transportar, colocava-as dentro dum grande cesto de verga (vime) que, depois de cheio, pegava nele e ala para cima da cabeça. Depois era o regresso, ela com o cesto cheio à cabeça e eu, com a enxada às costas sem jeito nenhum e todo embaraçado com o cabo que era enorme e, constantemente batia no chão à minha frente. Quando chegávamos a casa era só despejar o cesto. A cena repetia-se até ser transportado todo o produto cortado para a quinteira, onde ela fazia algum estrume para plantar e criar na nossa ”quinta” as insuportáveis couves-galegas. A primeira vez que fui a Fonte-Boa, foi numa apanha do cisco (caruma).

Enquanto a minha mãe e os outros andavam numa ‘fona’, de engaço nas mãos a juntar a grande quantidade de cisco existente no chão ao logo de todo o baldio, eu e os meus amigos da mesma idade fomos andando monte acima e só parámos em Fonte-Boa. Alguns já conheciam o sítio mas eu, embora já tivesse andado várias vezes no monte com a minha mãe ao tojo, às galhas, às pinhas e sei lá que mais, a Fonte-Boa ainda não tinha chegado. A primeira coisa que eu mais admirei quando lá cheguei foi a cor da terra. Existia ali um grande monte de terra solta proveniente de uma vala que tinha sido aberta para aproveitamento e encaminhamento da grande quantidade de água que ali nascia. A terra era branquinha tal como as pedras que nela se encontravam. 

Como todos já andavam lá no fundo da vala a apanhar pedras brancas eu, um pouco a medo, lá me deixei escorregar pela ladeira a baixo e juntei-me a eles. Depois das várias brincadeiras da canalha seguimos o enfiamento da vala e, uns metros à frente encontramos uma mina. Alguns meteram-se por ela a dentro como se nada de mal lhes pudesse acontecer, mas eu...  Só de ver o escuro de breu e o rego de água que de lá saía, logo pensei na maldita ‘Velha Sarronca’ que se encontrava em todo o lado que era escuro. Como nesta cena de nega eu não estava sozinho, toca a subir a ladeira novamente para terra firme. Já lá em cima, e olhando bem para o buraco de entrada da mina, o Necas teve uma ideia: “Vamos lá para a frente e assustamos os gajos”.

Eu não fazia a mínima ideia como ia-mos assustar os outros meninos que se meteram no buraco da mina. Fomos andando e, quando já estávamos em frente ao muro que marcava o final da Quinta do Arraial, comecei a ver uma grande quantidade de poços abertos, e alinhados no mesmo enfiamento, sem qualquer protecção. Então a ideia do Necas foi apresentada: Cada uma de nós, que eram uns três ou quatro, deitava-se na borda de um poço e, de cabeça virada para o buraco, imitava-mos um lobo. Uns minutos depois lá estávamos deitados em cima de carrasco de goelas abertas: uuuu, uuuu, uuuu. De repente, começo a ver a saírem do poço uns pássaros muito esquisitos, com asas sem penas a voarem em direcção aos meus olhos que me meteram um medo de morte.

Num ápice fugi dali a sete pés. Os outros, ao verificarem a minha atitude, não se fizeram velhos. Quando voltamos ao local da vala e terra branca, já lá estavam os afoitos que, segundo eles, tinham virado para trás sem explorar devidamente a mina por não se ver nada. Depois desviámo-nos um pouco para Oeste. Aí havia água por todos os lados. Alguma corria por um rego em direcção a uma pequena poça feita para que ela entrasse num buraco que a levava à poça nova.  De resto, não se punha o pé em lado nenhum que não tivesse água. Para evitar molhar-mos as botas, saltava-mos de moita em moita mas, mesmo assim, quando atingimos o local seco e tiramos as botas dos pés, de lá saia quase meio litro de água. A mim valeu o facto de a minha mãe estar muito entretida na faina, porque senão!...

A partir daquele dia Fonte-Boa para mim, era uma fascinação. Arranjava sempre argumentos para ir a Fonte-Boa. Certo dia, desafiei o Necas para ir-mos a Fonte-Boa beber água. Como ele não quis ir, fui sozinho. Penso que deveria ter uns 7 ou 8 anos dado que ainda não andava na escola. Nessa altura eu já lá tinha ido pelo menos três ou quatro vezes, mas sempre acompanhado, ou com a minha mãe que ia cortar tojo, ou mesmo com os meus amigos para as brincadeiras na água fresquinha que dava para beber e tudo. Mas, naquele dia eu tinha mesmo de ir a Fonte-Boa. As razões específicas já não fazem parte das minhas lembranças. Como o Necas me deu a nega, toca a avançar sozinho pelo monte acima a correr e cantarolar com muita alegria.

À medida que o pinheiral se adensava e as moitas de tojo se alongavam, a minha euforia foi baixando. Da correria desenfreada, passei a passo de corrida. Quando cheguei a uma “casota” feita em tijolo instalada a meio do baldio perto do caminho, ouvi um barulho muito esquisito que vinha lá de dentro. Curioso, e ainda sem medo, subi por ela a cima para ver o que se passava. Já lá em cima e sentado na laje que tapava a casota, espreitei e verifiquei que era a água que vinha de Fonte-Boa para a poça nova que, ao chegar ali mudava de cano e fazia uma barulheira que mais parecia uma grande cascata. Tirada a dúvida voltei ao caminho. O dia ainda ia alto mas, a luminosidade no meio do pinheiral era um pouco diminuída pela acção das grandes copas dos pinheiros.
   
Mas, o ventinho a zunir nas agulhas dos pinheiros tornava o sítio um pouco aterrador. Ele não assobiava da mesma maneira como o fazia de noite quando tentava passar por baixo da porta de minha casa. Aquela sonoridade doce que passava muito acima da minha cabeça, com os pinheiros a mexerem-se todos ao mesmo tempo quando eu passava, zunindo mais ou menos conforme as rajadas de vento, não me estava a agradar nada, mesmo nada. Como eu não tinha medo, mesmo com aquela ameaça pinheiral, continuei a caminho de Fonte-Boa. Para ultrapassar ‘aquilo’ que já me estava a pôr nervoso optei por cantar, cantar muito alto. Mas cada vez que olhava para cima, o raio dos pinheiros até pareciam querer deitar-me os tentáculos. Até já via as moitas do tojo a andarem de um lado para o outro.

Quando já estava naquele de, o melhor é virar para trás, começo a ver por entre os troncos dos pinheiros o grande montado das leiras de Chamosinhos. Grande alívio. Ali já não havia vento nem pinheiros a porem-me a cabeça à roda. Uma corrida acelerada e, eis-me em Fonte-Boa. Não foi necessário olhar muito. Bastou ouvir e sentir nos pés o chapinhar da água fresquinha e livre que serpenteavam pelo meio das moitas de carrasco e tojo ali existentes. Estava eu muito contente e distraído com aquela água que sempre corria em todos os sentidos quando, mesmo ali ao meu lado, saltou um pequeno ‘Lobo’. Deu um salto tão grande que me fez cair de rabo no meio dos carrascos atolados na água. Quando me levantei estava todo encharcado mas do lobo, nem rastos. As minhas pernas tremiam por todos os lados.

Depois de recomposto do susto, parecia um foguete pelo monte a baixo. Nem sequer tive tempo de pensar nos Pinheiros que me queriam agarrar. Quando cheguei ao Largo do Cruzeiro nem podia falar. Estava a contar a cena do Lobo ao Necas, quando passou junto a nós o Evaristo da Tia Constância. O Necas ao vê-lo, logo lhe foi dizer: Evaristo!... sabe uma coisa?... O Pedruxo viu um Lobo em Fonte-Boa!...”.  O Evaristo virou-se para nós e disse: “Um Lobo?... Não é um Lobo, é uma Lebre!.., eu também já a vi por ali. É muito novinha mas qualquer dia vem cá parar”. E assim foi.... Pouco tempo depois a Lebre foi apanhada na mina de Fonte-Boa e posta na capoeira das galinhas da tia Constância para quem a quis ver. O destino que lhe foi dado, nunca o soube mas calculo.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

O MEU GALO

O Conto que se segue é dedicado à CASADORAU, em especial à Ná e seu Esposo, Maria José Areal, Ana Martins e a todos os meus amigos.

Os únicos animais que se criavam em minha casa eram as galinhas. Nunca contei mais que quatro. Quando estas acabavam, decorriam grandes períodos de tempo para que outras ocupassem o galinheiro. A razão era muito simples: Quem tinha galinhas, tinha que lhe dar de comer, mas para dar de comer às galinhas era preciso ter comida própria. Para se ter comida para as galinhas era necessário a existência de terras de cultivo.

Como terras de cultivo para criação de animais em minha casa não existiam, não era possível apostar nas galinhas!... Nas galinhas, nos coelhos, nos porcos, nas vacas, nada, mesmo nada. Nós sabemos que as galinhas comem tudo o que encontram, mas isso não chega. É necessário dar-lhes de comer periodicamente.
Por vezes, quando a minha mãe trabalhava aqui ou ali, sempre trazia qualquer coisa para elas mas, a maior parte das vezes, as nossas galinhas não tinham direito a Jantar. Comiam o que encontravam no chão e ‘viva-o-velho’.

Assim, passavam mais tempo no cruzeiro do que na nossa quinteira. Nunca soube que raio de galinhas a minha mãe arranjava que não punham ovos. Por isso, no nosso galinheiro não havia ninho destinado à postura. O nosso galinheiro estava quase sempre vazio. Certo dia a minha mãe trouxe um galo muito jovem mas..., já era galo com crista e tudo.Era um galo lindo com uma crista tão encarnadinha que, mais parecia que tinha sido pintada.

Nos primeiros dias arranjaram-se uns talos de couve-galega (único produto cultivado na nossa ”quinta”) que, depois de muito migadinhos, ele engolia aquilo com grande sofreguidão sem saber o que era (penso eu). O galo era muito bonito e eu gostava muito dele, mas o gajo não me dava confiança. Quando tentava pôr-lhe as mãos em cima, lá vinha a picadela do galo.Mesmo assim, eu gostava muito dele.

Quando ia à Tiana, sempre trazia uma espiga de milho para o meu galo. Quando ia à Fonte nunca voltava de mãos vazias. Era um galo com sorte. Quando ele via uma galinha, era vê-lo a arrastar a asa para na oportunidade abusar dela. Ele mostrava aquele peito como se fosse o maior. 

O tempo foi passando, o galo foi crescendo e começou a ensaiar os primeiros acordes da sua cantilena. Como dormia sozinho, logo às cinco da manhã lá estava ele, mais parecendo uma “cana rachada”, a tentar ser ouvido pelos galos de outros galinheiros. A pouco e pouco, o galo foi afinando a voz e, acordava toda a gente.

Certo dia já de madrugada, ouvi minha mãe levantar-se da cama e, dirigindo-se ao galinheiro, pegou no galo e atirou com ele para dentro do velho cabano. Não lhe ficou de emenda porque, a partir daquele dia, o Galo até parecia que tinha relógio. À hora certa lá estava ele a acordar os outros. Depois era ver quem cantava mais alto. A festa começava cedo. Quando o galo se passeava pelo Cruzeiro, todo a gente o gabava. Ele até parecia que entendia os elogios, por isso, engalanava-se todo. Quando via as galinhas da Tia Covas lá na quinteira, dava uma corrida e era tudo a eito. Algumas, quando o viam a correr escondiam-se dele mas, depois de cumprida a obrigação com as que não se esconderam, lá ia saber delas.

Certo dia, já farto de esperar pelas meninas da Tia Covas que ainda não tinham recebido ordem de soltura, entrou na quinteira da Tiana Maceiras e, sem respeito nenhum pelos galos daquela capoeira, toca a exibir-se com grande provocação arrastando a asa a todas as galinhas. Depois de abusar de duas ou três, apareceram os galos da Tiana que lhe fizeram a vida negra. Enquanto as galinhas apoiavam os galos da Tiana cacarejando tanto que punham o meu galo surdo, eles abriam as asas e bicos dando grandes saltos uns contra os outros aproveitando o voo para aplicar a sua bicada na cabeça do adversário. Como o meu galo era mais forte, não se rendeu. Ele mantinha a luta renhida mas controlada. Um dos lingrinhas da Tiana já tinha levado uma boa bicada na ‘tola’ de tal maneira que já se via o sangue envolvendo as penas do pescoço.

Intrigada com todo aquele reboliço, a Tiana Maceiras veio à quinteira ver o que se estava a passava.
Depois, vendo que o meu galo era o maior, pegou num pau e correu com ele. Corrido à paulada mas vitorioso, quando chegou ao Largo do Cruzeiro passeou-se como que de um vencedor se tratasse, e lá foi para casa. Como foi um dia de muito trabalho, foi compensado com um punhado de milho que eu tinha trazido do caniço da Tia Viúva. De papo cheio, voltou ao Cruzeiro. Então não se estava já a fazer às galinhas do Tio Joaquim Ferrador?...   Valeu a Tia Helena que, ao ver as suas intenções correu com ele e fechou-lhe o portão. Tendo sido posto no olho da rua sem cerimónias o galo estava desolado. Quando o vi perto do portão do Tio Ferrador, já ele estava a ver a maneira de saltar o portão. Assim, dei uma corrida e fui buscá-lo mas, ele não se deixou agarrar. Num ápice entrou pela nossa quinteira dentro e meteu-se no galinheiro. 

Certo dia fui a Vila Meã e, ao passar pelo meio de umas latadas lá para os lados do Pereiro, vi que junto a um valado amarinhava a rama de uma aboboreira, (Abóbora porqueira). Como estava habituado a ver as aboboreiras a rastejarem no meio dos milhos achei estranho, por isso, aproximei-me para verificar melhor como era aquilo que, em vez de rastejar, subia pelos arbustos e silvas do valado. Ali descobri que ao longo do valado, estavam penduradas uma série de pequenas aboboreiras com duas barrigas, eram todas defeituosas. Uma barriga maior, depois afunilava para dar origem a outra barriga mais pequena. Intrigado com a cena, peguei numa e torci, torci, torci até desprender-se do pé onde tinha nascido. De seguida, meti a aboboreira debaixo da camisa e, ala em corrida até ao caminho do campo redondo. Dali até casa foi um saltinho.

O objectivo era fazer como a minha mãe: cortar a aboboreira em bocadinhos muito pequeninos e dar ao galo que se regalava todo. Engolia aquilo, bebia água, e lá ia ele de papo cheio com aquela crista muito encarnada e bem alta. Empertigava-se todo mostrando aquela peitaça de pluma multicolor e rabo altamente ornamentado a exibir-se perante todas as “meninas” que, em liberdade, tinham direito a passearem-se no Largo do Cruzeiro de Chamosinhos. Ele cresceu muito e, sabendo isso, fazia frente a qualquer outro galo que o desafiasse.

Passeava-se no Cruzeiro como um rei e toda a gente o admirava. Era bonito, grande e atrevido. Não se preocupava nada em se mandar a uma galinha mesmo com a dona ali por perto. Mas a aboboreira que eu trouxe de Vila Meã não se me ajeitava nada para a cortar tal como a minha mãe fazia. Assim, e como o meu amigo Necas estava em casa, levei a aboboreira comigo para lhe pedir ajuda: A intenção era ver se ele tinha uma faca grande para a cortar aos bocadinhos. Fomos para o lugar e, depois da eira entrámos no cabano onde estava o carro de bois. A aboboreira foi posta em cima do carro.

Andava o Necas de gatas lá num canto do cabano à procura não sei de quê quando apareceu o Tio Manuel do Alves, pai do Necas, vindo do lado do lugar com uma enxada às costas. Chegado ali, arrumou a enxada e, vendo a minha aboboreira em cima do carro, pegou nela e disse:
“Olha uma cabaça!... Quem foi que deu a cabaça?...”. Perguntou ele ao Necas.
O Necas não foi de meias medidas e logo despachou para mim:
“Foi o Pedruxo que a trouxe!...”.    
“Ah!... Então agora a tua mãe semeia cabaças?...”.

Fiquei tão atrapalhado que já nem sabia o que lhe havia de dizer:
Por fim lá veio a justificação: “Não Tio Manuel, foi o Adélio de Vila Meã que me deu para o meu galo!...”.
“Oh rapaz, isto nem um boi a come quanto mais um galo!...”.

Dito isto e sem mais explicações, pegou numa pequena corda que atou à cabaça, subiu para o carro de bois e toca a pendurar lá bem no alto a minha cabaça. Quando desceu do carro eu ainda esperava que ele me desse qualquer coisa para o meu galo, mas não. Virou as costas e lá foi ele para dentro de casa.
Irritado com a cena, virei-me para o Necas e disse-lhe: “Já viste?..., Agora não tenho nada para dar ao galo!...”.
Como os verdadeiros amigos são para as ocasiões, o Necas disse-me baixinho:
“Deixa ele sair que eu levo-te a casa uma saca de milho para o galo”.

Fiquei tempos sem fim sentado nos degraus do Senhor do Cruzeiro à espera de ver o Tio Manuel do Alves sair de casa. O meu galo, que estava habituado aos miminhos que eu lhe dava, andava por ali a rondar-me como que a perguntar: “Então!... Hoje não há nada?... Olha que eu estou cheio de fome!...”. Como eu compreendia bem o meu galo.      

Estava eu muito distraído a olhar lá para os lados da casa do Tio António do Real, quando o Tio Manuel do Alves passa com uma foucinha cravada no ombro em direcção ao regueiro. No minuto seguinte, chegou o meu amigo Necas com uma saca de milho escondida debaixo da camisa que devia ter meio alqueire. Era a comida para o meu galo. Fiquei muito satisfeito e o meu galo, por certo que ficou muito agradecido. Nesse dia teve direito a dois punhados de milho depois, e com a saca bem escondida da minha mãe, aquele milho foi racionado. Quando a minha mãe trazia alguma coisa para o galo, eu não lhe dava nada. Era preciso ter alguma reserva para uma eventual crise.

Além disso, de vez em quando o menino abastecia-se na quinteira dos outros. Bastava a distracção dos cancelos abertos e, lá estava ele a mandar-se às galinhas e já agora, a encher o papo. O Maio chegou e com ele um calor terrível. Os lavradores andavam muito preocupados com a seca das suas culturas. Cada dia que passava o Sol parecia que queimava mais. O meu galo andava de bico aberto. Não tinha vontade de comer e nem lhe apetecia sair da quinteira. Bebia, bebia água até mais não. O calor continuava a aumentar. Um dia, fazendo como que das tripas coração, foi dar uma voltinha ao Cruzeiro e não voltou. O meu galo não resistiu ao calor e...,

O Rei de Chamosinhos sucumbiu.

Chorar por um galo pode parecer ridículo mas...  Quando se chora por um amigo que faz parte do nosso coração... Não parece mal... Pois não?...    

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

A POÇA NOVA 

Quando eu deixei de ter medo do escuro e dos sítios onde poderia aparecer a “Velha Sarronca”, certo dia aventurei-me a ir para lá da casa do Tio Ferrador a caminho do monte. Caminho velho e cheio de pequenas pedras soltas, atravessado pelas raízes dos grandes pinheiros, levou-me até à ‘poça nova’. “A poça nova ficou assim conhecida por ter sido feita nos anos quarenta”. A Comissão dos Habitantes de Chamosinhos de então escolheram o sítio adequado, fizeram um grande buraco e colocaram lajes de pasta (granito da região) em toda a volta para segurar as terras, tendo em conta a saída de água controlada, naturalmente. 

Chegado lá, fiquei ali a ver a água a entrar na poça através de um cano em grés vinda de Fonte-Boa. Ela batia lá bem no fundo da poça vazia, fazendo aquele tradicional barulho de cascata. Então, sentei-me na borda da poça e fiquei ali à espera de a ver encher. Por mais água que caísse lá em baixo, até parecia que desaparecia sem eu conseguir ver por onde. Cheguei à conclusão que era muito difícil ver a água subir na poça. Por vezes acontecia que, quando lá chegava a poça estava cheia..., cheiinha a deitar por fora. Ali eu via nela um grande lago de água do qual tinha muito medo. Por isso a minha presença era bem de longe. Era enorme aquela poça. Aliás, naquele tempo para mim, tudo era grande.  

Eu andava encantado com a poça nova. Assim, sempre que a minha mãe ia trabalhar para fora e eu tinha de ficar em casa, quando me lembrava, lá ia ver a poça. A água a cair daquela maneira e a bater lá bem no fundo da poça fascinava-me. Certa vez quando lá cheguei, a poça estava a meio do seu enchimento. Assim, já não podia sentar-me na borda da poça e pôr os pés pendurados para o lado de dentro, por isso, fiquei por perto a vê-la encher.

Ao fim de muito tempo de espera, ouvi o motor de um automóvel que passava na E.N.13 a caminho do Fulão. Eu já estava habituado a ver o automóvel do Tio Serafim do Real que, todos os dias saía com ele logo de manhãzinha não sei para onde. Regressava à noite e era guardado no cabano que estava virado para o Senhor do Cruzeiro.  

Da minha casa ouvia o Tio Serafim e o irmão Camílio a darem à manivela, que estava colocada na parte da frente do carro, para o motor começar a trabalhar. Nos Invernos mais gelados daquele tempo, ficavam ali a dar à manivela tempos sem fim. Quando finalmente o carro acordava, lá iam à vida deles. (Era o Táxi do Serafim do Real que fazia serviço em Valença). Em Chamosinhos haviam dois Táxis: Um do Tio Serafim do Real e que eu via todos os dias, e outro do Tio Camílio do Melão que eu nunca o via. Mas carros a passarem na estrada em grande velocidade nunca tinha visto, assim, e como a poça não mostrava sinais de enchimento, fui até à estrada que se situava um pouco mais a Sul. Que cheirinho e tão lisinha que era a estrada. Automóveis... nunca mais chegavam. Sentei-me mesmo no meio e verifiquei que a estrada era um pouco oval. Mais tarde soube que era por causa das grandes chuvadas. Fartei-me de esperar para ver passar um carro.

Como não vinha nenhum decidi dar meia volta e voltar para perto da poça. Quando já estava quase a chegar, ouvi lá para os lados do Fulão os ruídos de um automóvel em movimento. Meia volta, uma corrida e, lá fiquei à espera de ver o automóvel passar. Ele chegou ao pé de mim num ápice, desaparecendo da mesma maneira. O mais incrível foi que eu não consegui ver o motorista. Então fiquei com a ideia de que aquele carro não levava ninguém. Quando voltei, já não parei na poça nova. Segui até ao Cruzeiro e andei por ali. À noite, estava eu com uma malga de sopa de canuxos à minha frente e a minha mãe à espera que eu a engolisse, quando ouvi chegar ao Cruzeiro o carro do Tio Serafim do Real. De repente, levantei-me do banco e toca a correr para o velho cancelo da quinteira. Eu queria ver bem de perto, se o automóvel trazia condutor ou se, tal como o que vi na estrada, andava sozinho.

Eu vi... E vi que o carro era conduzido pelo Tio Serafim do Real. O que eu não vi foi a minha mãe que já estava atrás de mim com a vergasta na mão. Surpreendido, ainda fiz uma tentativa para me esquivar mas não resultou. Ela agarrou-me pelo braço e toca a malhar até lhe apetecer. Depois, seguiram-se os canuxos que, sem saber como, até me souberam bem. (Vá lá a gente saber porquê...).
 
Naquela época em que a poça nova tinha tanta utilidade para os terrenos de cultivo, andava no ar um ‘Boato’ que muito alegrava os habitantes de Chamosinhos:

- A água de Fonte-Boa, vai chegar ao Largo do Cruzeiro -  Diziam que seria feito um fontanário e que a água chegava e sobrava para abastecer toda a população. Acabava-se assim, o martírio das mulheres irem todos os dias, de cântaros à cabeça, buscar água á fonte.

A água de Fonte-Boa era de grande qualidade e quantidade. A água de Fonte-Boa nascia nos montados bem perto das leiras do baldio de Chamosinhos e corria a céu aberto por meio de tojos a carrascos podendo-se beber em qualquer circunstância. O ‘Boato’ chegou a criar formas de realidade. Mas... o tempo foi passando e o ‘malogrado boato’ foi-se esfumando. Tal como as nuvens que aparecem e andam lá nas alturas qual imaginário cheio de esperança e vai desaparecendo sem ninguém dar por isso. Os interesses estavam instalados e por isso, o medo, o egoísmo ou mesmo a inveja superaram o interesse geral a favor daqueles que tinham meia dúzia de terras para regar. Pensavam eles que a água que era destinada ao fontanário lhes ia fazer muita falta para os seus cultivos.   

Hoje, a maior parte daqueles terrenos estão abandonados e o Lugar de Chamosinhos está a beber água do garrafão.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

O FEAL DAS BRUXAS

No tempo em que eu ia para a escola de Vila Meã, um dos três caminhos que tinha para lá chegar, era pelo Feal. Nessa época, nunca ouvi ninguém dizer que aquele sítio de chamava Feal das Bruxas. Só quando, por razões meteorológicas, aparecia lá bem nas alturas o Arco-íris, as pessoas diziam: “Olha o Arco-íris!... Estão as bruxas a pentearem-se no Feal”. Isso era o que eu ouvia, de resto, o tratamento referente àquela zona era: O Feal.

O Feal configurava-se de Sul para Norte, era um sítio de lameiro com uma pequena inclinação para Oeste, em que as nascentes se sucediam umas às outras. Era muito interessante ver, nas centenas de pequenas poças ali existentes a água a nascer formando borbulhinhas constantes. Depois, a água saía dessas poças e aparentemente sem rumo, chegavam a uma Congosta que a levava ao esteiro em direcção ao Rio Minho. O que eu nunca consegui perceber era como apareciam nas poças mais largas pequeníssimos peixes, ‘bogardos’, aos milhares que, à medida que iam crescendo desapareciam e logo outros ocupavam o seu lugar.

Quantas vezes dei por mim, deitado no panasco que circundava as poças, a colocar a minha mão direita totalmente aberta, bem lá no fundo mesmo encima da efervescência provocada pelo nascimento da água, na esperança de que um peixinho fosse curioso e tivesse a audácia de ir ver que raio de coisa era aquela. Como eles eram muito espertos, limitavam a observação à distância e, sempre que eu mexia um único dedo, desapareciam sem me darem oportunidade de ver por onde. Nos Invernos mais rigorosos em que predominavam as grandes geadas, deixando um manto branco em toda a região, era ver naquelas poças com uma camada de gelo que deveriam ter mais de um centímetro de grossura.

Nessa época, quando ia para a Escola e passava por ali, por vezes e por curiosidade, metia as mãos numa dessas poças e retirava de lá uma peça de gelo do tamanho da poça. Depois, mostrava aos colegas da escola que me acompanhavam o grande vidro de gelo. Assim, e depois das brincadeiras com o gelo e de mãos geladas, lá ia eu a bater o dente até à escola onde a professora, na oportunidade, fazia o ‘favor’ de me as aquecer com algumas reguadas.  

O Feal tinha um caminho que servia de passagem para Vila Meã mas, no inverno esse caminho ficava intransitável. A canalha que ia para a escola utilizava as pequenas moitas e saltava de uma para a outra para não se atulhar na lama. Por vezes utilizava o bordo do regato de captação de águas para regadio que, na época, era conduzida para as terras de cultivo.

Os homens das gerações anteriores que tinham terrenos de cultivo nas imediações do Feal, viam a água a nascer e a escapar-se para o Rio Minho. Por isso, juntaram-se todos e, toca a abrir um grande regato de maneira a que a água fosse ali acumulada e depois utilizada na rega dos campos.

Assim, e na parte mais elevada do lameiro, nasceram dois regatos:
Um que partia do Feal das Hortas, relativamente estreito e que levava a água para os campos do lado Oeste do Feal onde se juntava com as águas que vinham do Feal do Poço lá para os lados da Trelaveiga e da Fonte de Vila Meã. Outro de maiores dimensões captava a água que vinha do lado do Fial das Hortas e que regava as terras a Norte do Feal.   

Era neste regato alargado que grande parte das mulheres de Chamosinhos iam lavar a roupa. Á cabeça, um alguidar de barro cheio de roupa para lavar. Nas mãos, um banco de madeira próprio para se ajoelhar. Era vê-las todas aligeiradas pelo caminho da Miranda em direcção ao Feal. Depois da pequena descida cheia de pequenas pedras soltas, lá chegavam elas à “lavandaria” a céu aberto. A água que ali passava podia-se beber sem qualquer escrúpulos. Era um produto de alta qualidade e acabado de nascer.

Que o digam os milhares de rãs que, à noitinha faziam tanto barulho que se ouvia no largo do Cruzeiro. Que o digam as centenas de enguias que faziam daquele regato o seu habitat proferido. Que o digam os bogardos que, sem nunca ter conseguido ver como ali chegavam, faziam de todas as poças ali existentes, as suas maternidades.   

Quando as mulheres chegavam ao Feal, mandavam o banco para o meio do chão e depois, com o cuidado que era necessário ter, tiravam o alguidar da cabeça e colocavam-no ao lado direito da pedra onde iam esfregar a roupa. O banco era colocado na frente de uma das três pedras de granito existentes na borda mais larga do regato. De seguida davam início à lavagem da roupa. Depois, era ver aquela espuma de sabão a deslizar muito devagarinho, fazendo pequenos círculos de acordo com o movimento da água ao longo do rego que a levava ao regueiro.

Como no lado oposto das pedras de lavar roupa existia uma área bastante grande e atopetada de panasco, no final das lavagens, a roupa era ali estendida para corar. Além das nascentes sempre constantes, no Feal também existiam Salgueiros, Amieiros e diversa vegetação dispersa por todos os lados.

Certo dia estava eu no Cruzeiro e ouvi, um homem já de idade a dizer ao meu Padrinho:
“Oh trilho!... Olha que hoje é o dia do acasalamento das enguias do Feal!... Já foste ver?...”.
“Já estou farto de ver isso!....”. Resposta seca do meu padrinho.
Eu que nunca tinha visto isso, e nem sequer sabia o que queria dizer acasalamento, pensei:
“Que coisa tão estranha!...”.    
Dali ao Feal, passaram pouco mais de trinta segundos. Quando lá cheguei fiquei deslumbrado:
Centenas de pequenas enguias estavam em movimento constante lá bem no fundo e junto ao lodo do regato do Feal. Elas entrelaçavam-se umas nas outras, mergulhavam no lodo onde desapareciam, para voltarem no momento seguinte novamente entrelaçadas. Foi a única vez na minha vida que vi tal espectáculo.  

Não havia dia nenhum que eu não fosse ao Feal. Ali, era a força da Natureza que ordenava.
Certo dia o “Progresso” chegou ao Feal. As águas das nascentes que livremente corriam em direcção ao regato com destino ao Rio Minho foram atulhadas para dar lugar a uma estrada que faz a ligação de Chamosinhos para Vila-Meã.

Assim, acabaram-se as dificuldades que o ser humano tinha ao passar por um Pântano Natural, Selvagem mas cheio de vida. Ali predominavam as enguias, as cobras de água, as rãs, os sapos, os bogardos, os patos bravos, etc. Todos viviam em Paz.
E assim sucumbiu o Feal das nascentes, das enguias e das rãs, para dar lugar ao Feal das Bruxas.