sábado, 26 de novembro de 2011

QUANDO SE AMA - ACONTECE POESIA

AINDA O CONCURSO DE POESIA

CONVERSA COM AMIGOS:

No âmbito das comemorações do 25º aniversário do Centro Cultural de Campos, os seus organizadores promoveram um concurso de poesia de tema livre ao qual lhe chamaram:

A poesia no encontro do tempo”.

O regulamento foi publicado e devidamente divulgado. Ao ter conhecimento do evento, e dado que até gosto de poesia, logo pensei em concorrer. Para tal, e de acordo com o regulamento, só eram aceites três trabalhos inéditos. Assim, e de acordo com o meu imaginário, toca a escrever, escrever, escrever...
Quando dei por ‘mim’, já tinha quatro trabalhos prontinhos para apresentar em concurso. Como não podia deixar de ser, três destes trabalhos foram dedicados à terra onde nasci:

CHAMOSINHOS.   
Para desconstranger o Júri na hora da decisão, no quarto trabalho divaguei um pouco, para ‘voar’ ao meu jeito. No final, e tal como um pai que olha para os seus filhos acabados de nascer, fiquei muito garboso. Eram todos lindos... Fui eu que fiz! Claro que só podiam ser lindos..., mas para concurso, só podiam ser enviados três.

E agora!... Como vou resolver isto? Era a incógnita! No Fim-de-Semana que se seguiu, reuni os meus filhos, os meus netos e até os dois cunhados. Para tal e como não podia deixar de ser, não faltaram as sardinhas assadas. No final, e já com o cafezinho a ‘léguas’, foram distribuídas quatro folhas de papel A4 nas quais se encontravam os quatro poemas escritos. Todos caladinhos e com muita atenção, toca a ler um poema de cada vez.
Depois de lidos e discutido o seu “valor poético”, fiz uma proposta:
“Há um que não vai a concurso: Qual?...”. Conclusão: Como eram todos muito bons, iam todos a concurso. Foi a opinião geral. Mas o regulamento só aceitava três. Assim, a ‘bola’ voltou às minhas mãos!...

                           1- CHAMOSINHOS MEU AMOR
                           2- FONTE BOA DO MEU CORAÇÃO
                           3- O RIO
                           4- VOAR

Os títulos eram todos sugestivos mas..., um deles tinha de ser ‘descartado’. Depois, e já pela noite dentro, pensei:
- Qual é a dúvida, se o propósito é apenas e só participar?
Assim, com as folhas A4 viradas ao contrário, embaralhei, embaralhei e sem olhar, retirei uma. Foi com tristeza que vi já fora do ‘baralho’ o meu primeiro trabalho:

                             CHAMOSINHOS MEU AMOR

Mas, como um tinha de sair, estava decidido e pronto. Este poema foi publicado no meu Blog.
Desta maneira, foram enviados para concurso três poemas.

1- FONTE BOA DO MEU CORAÇÃO
2- O RIO
3- VOAR

Fonte Boa, encontra-se no baldio de Chamosinhos e, situa-se no final da quinta do Arraial, entre o grande pinheiral a as leiras que chegam à Freguesia da Silva. Era um sítio extraordinário. Ali nascia água por todos os lados. Era cristalina e podia-se beber mesmo directamente dos charcos onde se encontrava. Os mais antigos, à custa de pás e picaretas, abriram poços e minas e uma grande vala que conduzia a água até à poça nova que se situa perto da entrada de Chamosinhos e, ainda hoje está activa. Dizia-se que aquela água, um dia havia de ser levada até a um chafariz a erguer no largo do cruzeiro. Toda essa esperança se ‘esfumou’ no tempo.
Como a inteligência do ser humano não pára de pensar, quer para o bem quer para o mal, mandaram colocar uma ‘LIXEIRA’ à qual, pomposamente, lhe chamaram “ATERRO SANITÁRIO” mesmo em cima dos lençóis de água subterrânea, destruindo por completo aquele lugar paradisíaco. Agora, além, além do ar que se respira, chega aos poços e à Fonte de CHAMOSINHOS água envenenada.    

O Rio Minho, no século passado foi a base de alimentação para centenas de famílias das aldeias ribeirinhas. Os pescadores, portugueses e espanhóis não davam tréguas à pescaria: O peixe emigrante que utilizavam o rio para, na época própria desovar, tal como o: Sável, salmão e, lampreia era de tal ordem abundante que, por vezes, havia tanto peixe que chegaram a apanhar numa só redada mais de 500 peças. Além do peixe emigrante, também existia o residente tal como: A truta, solha, enguia, tainha e tantos outros.    
Enfim, era o meu rio onde muitas e muitas vezes, debaixo do grande arvoredo existente ao longo das suas margens, me sentei com os pés dentro de água a ver minuciosamente a subida ou descida das marés. Aqui, também a inteligência humana se encarregou de o envenenar e, ao mesmo tempo, travou o percurso daqueles que o procuravam para se multiplicar aos milhões.

Voar! Voar foi um trabalho de imaginação que quis por à prova do júri. Foi pena não ter sido pontuado no sentido de eu analisar até que ponto existia nele algum significado. 
  
Foi a primeira vez que participei num concurso de poesia. Claro que, nem de perto nem de longe me passou pela cabeça que, alguma vez, fossem classificados nos trinta primeiros lugares. O concurso previa prémios para os três primeiros e para os restantes, um Certificado de participação. O evento aconteceu a 9 de Setembro com uma grande festa à qual, infelizmente, não pode assistir. Entretanto o júri decidiu e, os primeiros classificados apareceram muito naturalmente. Como eram mesmo os melhores, ocuparam os primeiros lugares e pronto. No entanto, penso eu, o júri achou por bem não criar expectativas entre os restantes concorrentes, ou seja: Aqueles que ficaram em quarto, quinto e por aí fora até ao último.

No meu ponto de vista, acho que todos os trabalhos apresentados a concurso, deveriam ter sido classificados, e isto porquê? Porque, seria engraçado que os participantes soubessem o lugar que ocuparam nas mais de trinta obras apresentadas a concurso. Depois cada um poderia fazer a análise do valor que o seu trabalho teve perante um júri acreditado. No meu entender, essa leitura poderia dar um certo entusiasmo a quem gosta de fazer poesia. Claro que, o último lugar em trinta, não ajudava muito mas..., quem sabe? Até podia ser um motivo para tentar de novo e, fazer melhor. Assim, e para que todos os meus queridos amigos/as seguidores possam ler os poemas que escrevi e apresentei a concurso, vou publica-los a seguir. Muito gostaria de saber a vossa opinião sincera.
Por favor, comentem!...

========== ««»» ==========

FONTE-BOA DO MEU CORAÇÃO

Quando era pequenino,
pelos caminhos andei.
Descobri um carreirinho,
e Fonte-Boa encontrei.

Por ela me apaixonei,
com ela fiquei encantado.
Como foi isso não sei,
Mas fiquei enamorado.

Era o sítio mais bonito,
lá para os lados do Baldio.
Com nascentes a cintilar,
com a água a deslizar,
era um lago de encantar,
quer no calor ou no frio.

Fonte-Boa lá no monte,
tem uma lixeira também.
Com o fim no horizonte,
por via duns filhos da Mãe.

O bicho Homem chegou,
e ao que ali encontrou,
puxou por seus galões,
e não teve contemplações.
Por inveja ou por vingança,
um plano elaborou,
que logo o aprovou.
As águas ele matou,
com Fonte-Boa acabou
e lá foi a nossa esperança.

Oh gentes de Chamosinhos,
por Fonte-Boa chorai.
Como somos pobrezinhos,
prometeram dez aninhos,
Mas já nos vinte vai.

Aos jovens da minha terra,
que Fonte-Boa nunca viram.
Por ela já houve guerra
Os mais fracos desistiram.

Local digno de se ver,
onde a água predominava
era um regalo dela beber,
era limpa e cristalina,
agora foi envenenada,
por uma grande cambada.
Quem a beber pode morrer.

Lutem sempre pela vida,
não se deixem intimidar.
Protejam a Natureza,
pois podem ter a certeza,
que ela vos recompensa,
sem nada vos cobrar.

António Sanches

========== ««»» ==========

O RIO...

Oh Rio do Alto Minho,
Oh Rio da minha Terra.
Quantas vezes me viste sozinho,
Travando contigo uma guerra.

Tu és grande, provocador e frio,
Eu sou pequeno, irrequieto, mas forte.
Nunca de ti tive medo, oh! Rio,
Quando me ameaçavas de morte.

Muitas vezes a olhar-te estive,
Ao longe os cucos cantavam.
Cantigas que sempre ouviste,
Tuas ondas me consolavam.

Em ti nunca mergulhei,
Não por falta de confiança.
Mas porque nadar não sei,
No futuro tenho esperança.

Meninos irrequietos e sem frio,
Para sempre a vida perderam.
Porque fizeste isso, oh! Rio!...
Eles não te mereceram?

Dás de comer aos pescadores
Dás de beber aos milheirais.
Onde escondes os teus amores,
Não dás confiança aos demais?

Há quem não goste de ti,
Tudo serve para te acabar.
Lançam-te veneno que bem vi,
Para os teus filhos matar.

As areias do teu leito,
As Barragens a Montante estão.
As Etares sem qualquer jeito,
Deram cabo do teu coração.

Quando eras mais novinho,
Mostravas quanta força tinhas.
Inundavas o Vale do Minho,
afastavas os fuinhas

Ao fim de tanta tortura
Ficaste sem pujança.
Agora mostras doçura,
Deste muita confiança.

A tua beleza não tem fim,
E nobreza também não.
És velho, mas a vida é assim,
Vivemos a mesma condição.

António Sanches

========== ««»» ==========

VOAR...

Hoje..., vou voar até me apetecer.
Apetece-me tanto voar,
não sei o que vai acontecer.
Como o hei-de fazer?

Vou voar, voar até ao amanhecer.
Fechar os olhos?... não,
isso não me vai apetecer.
Quero voar, voar sempre a ver,
muitos medos eu vou ter.

Tenho pressa de viver
Quero voar até me apetecer
Hoje sou um pássaro qualquer,
Talvez um pica-pau não ficasse mal...
Uma ferreirinha?..., nem sequer...
Ah!!! Eu prefiro um pardal.

Tenho pressa de viver,
e voar... não parece mal.
Voar leve, livre e sem sofrer,
Eu já quero ser pardal.
Não sei o que vai acontecer.

Quero voar nas alturas,
e com vontade de voltar.
Não vou ser como as andorinhas,
Que perdem a vida no mar.

Quero voar com alegria,
Com vontade de viver.
Quero voar com magia,
Voar, voar só para te ver.

Voando te encontrarei,
Em nuvem branca deitada.
Voando não te deixarei,
Noutros voos abandonada.

Voando sempre de mão dada,
Dois passarinhos encontrámos.
Voando, já bateram as asas,
Nesses voos já não entramos.
Vou voar, voar até me apetecer,
Mas..., não sei o que vai acontecer.

António Sanches

terça-feira, 25 de outubro de 2011

QUANDO SE AMA - ACONTECE POESIA

   OS SOFREDORES DO “AMOR”


A pior coisa que nos pode acontecer é gostarmos de
quem não gosta de nós. Os chamados sofredores não
passam de meros masoquistas. São muito insistentes,
convencidos e nunca desistem. Para mim, sofredores
são os que amam e não são correspondidos. Eles
arriscam tudo: Mesmo vendo os dentes delas bem

‘arreganhados’ (qual gata assanhada), eles
continuam a insistir na tentativa de as conquistar de
qualquer maneira. Às tantas, já não são só elas no
chega para lá: São as mamãs, os maninhos e até as
amiguinhas do lado. Todos correm com eles: à paulada,
à pedrada ou apenas com palavreado provocador

e insultuoso. Mas os masoquistas não entendem muito
 bem estas atitudes. (Se ele gosta dela é para a
conquistar, por isso e por mais atrocidades que lhe
façam, não desiste).Por isso, e na hora, lá estão eles
na frente da batalha. Até que um dia aparece alguém
que, de mangas arregaçadas, e com um pau nas mãos,

se dispõem a pôr termo de vez à perseguição da menina:
É o pai dela. Nestas coisas do amor, nem sempre
são assim tão difíceis mas... também não tão fáceis!!!
Por vezes, e quase sem sabermos como, encontrámos
o nosso ideal ao virar da esquina. Uma troca de
olhares, um sorriso meio amarelo pelo meio e,

lá vai ela...Depois, pasmados..., de imediato fazemos
uma leitura positiva: “A ‘gaja’ gosta de mim!!..”. 
A seguir, logo traçamos um esquema de aproximação.
Normalmente, a primeira vez não corre bem.
Andamos ali a ‘gravitar’ sem jeito nenhum, à volta
de uma ‘estrela’ sem norte e de repente..., acontece

a primeira ‘bronca: Nós ‘tropeçamos’ nela e...,
a menina vai fazer queixa à mamã. Na segunda
aproximação, em vez da menina, aparece a mãezinha
que, olhando para nós de alto a baixo, ali mesmo nos
tira as ‘medidas’. Depois, e muito caladinha, lá vai
ela para casa dar conselhos ao seu “bebé”:

Se ele já era conhecido e é um bom partido, os
conselhos, embora positivos são acautelados:  “Toma
cuidada com ele. Não o deixes abusar. Evita os
beijinhos quentes e especiais porque  são muito
perigosos!... “Ela sabia o que dizia”.

Se ele não era conhecido e, ainda por cima, não
se apresentava vestido de fato, gravata e colete, aí...
os conselhos já eram diferentes: Já viste bem!...,
agora andas a dar confiança aquele maltrapilho
que não tem onde cair morto?... Ficas proibida de
ires à janela!... ouviste?... Partindo de um princípio

que a ‘análise’ da mamã foi positiva..., à menina
era dada a liberdade de ir namorar para a janela
do quarto dela. E dali, ela podia exprimir livremente
tudo o que lhe ia na Alma!!!. Mas..., só à janela,
porque de resto, a coisa já mudava de figura.
Depois das primeiras aproximações do nosso amor,

chegava o pedido sussurrante bem juntinho ao ouvido:
“Sabes querido, os meus pais querem falar contigo!...”.
Era o nosso primeiro incómodo perante ela.
(Até parecia que nos tinha dado um murro no estômago).
“Falar comigo para quê?... Perguntava ele muito
admirado. Depois das explicações e vergado ao seu

amor, chegava a hora da ‘tortura’: Primeiro a mamã.
De uma maneira geral, e só para este efeito, nós
éramos convidados a entrar pela primeira vez em
casa da nossa amada. Era ela que nos abria a porta e...
 era ela que nos conduzia à sala onde nos esperava
o sofá, ou mesmo uma simples cadeira. Momentos

depois, abria-se uma das várias portas viradas para a
sala e... lá vinha a mãezinha sentar-se ao nosso lado.
Nesse mesmo instante, o nosso amor saltava dali
para fora como um foguete. Abandonados, ficávamos
assim como ‘parvos’ a olhar para aquela que, ora de
semblante carregado, ora de ‘tachas’ arreganhadas,

se preparava para nos torturar ali mesmo.
Ela queria saber tudo sobre nós: Quem eram os
nossos papás, onde moravam, o que faziam, quantos
irmãos tínhamos, se tínhamos casa própria, se
tínhamos carrinho, e mais coisas relacionadas com
a nossa vida familiar. Por fim, lá vinha a pergunta difícil:


“O que é que você faz e quais os seus objectivos?...
Com as respostas relativamente fáceis do: (Sim, não,
talvez, bem, sabe, é que!...), ainda vá que não vá!...,
mas...Essa coisa dos objectivos... dava para engasgar.
O primeiro objectivo para nós, era apenas namorar,
o resto, logo se via. Mas, como não conseguíamos

encontrar rapidamente argumentos suficientes para a
mamã nos largar da mão, logo aparecia a tosse, os
suores, os tiques e a falta de jeito na colocação das
mãos: Ora seguramos os queixos, ora coçávamos a
cabeça, ora entrelaçávamos as mãos uma na outra
mostrando os polegares a rolar um por cima do outro

enfim, era uma autêntica falta de postura.
Depois da resposta que, de uma maneira geral era
bastante atabalhoada, lá conseguíamos convencer a
mamã. Que grande alívio era ver aquela (futura sogra)
a abandonar o sofá. Conquistada a simpatia da mamã,
era a vez de enfrentar o papá. Na época os papás

gostavam de falar a sós com os amores das suas meninas,
por isso, nada de sofás. Normalmente o encontro
era marcado para a esquina da rua onde moravam
ou mesmo perto da taberna onde ele costumava parar.
À hora combinada, lá estávamos nós a olhar para todos
os lados sem ver nada. O tempo de espera dava para

pensar nos argumentos que tínhamos para lhe
apresentar e isso, atenuava um pouco a nossa
tremedeira. Sempre atentos à sua chegada, a dado
momento lá via-mos o papá a sair de casa. À medida
que se aproximava de nós, sentia-mos o nosso
coração a bater mais intensamente: Era a dúvida,

era a incerteza, era o receio da corrida a pontapé,
era a recusa, eram as perguntas incómodas e difíceis
que, por certo, ele iria fazer. Depois, era a nossa
incapacidade da resposta imediata. Tudo estava
em causa. Tudo mexia com o nosso imaginário.
A partir daquele momento tudo poderia acontecer:

A primeira hipótese era ele dar-nos uma grande corrida,
A segunda era dar-nos uma seca da ‘meia noite’.
No entanto, e de uma maneira geral, o homem
apresentava-se muito sério, de semblante carregado,
sisudo e sobretudo, cheio de pressa. Assim, e depois
das “Salvas” e do cumprimento, vinha a recomendação:
(Quero muito respeitinho com a minha menina,

ouviste?...Nada de abusos!...). No minuto seguinte
já ele ia pelo passeio abaixo a assobiar!...(Afinal,
tanta preocupação e tanta tremedeira para nada!...).
Depois de conquistar a amizade da mamã e de ser
tolerado pelo papá, todo o tempo disponível era
dedicado ao nosso amor. No entanto, amor dentro

de casa continuava fora de questão. “Se quiseres
namorar com ele, vais para a janela!! Dizia a mamã.
E pronto!..., era caso arrumado e não se falava mais
no assunto. O problema era que as nossas ‘miúdas’
quase sempre moravam nas alturas: Primeiros,
segundos e por vezes até nos terceiros andares.

Com a porta de casa fechada às nossas intenções,
restava-nos o passeio. Depois do sinal previamente
combinado, aparecia ela toda ‘gira’ à janela a mandar
beijinhos. Também dizia coisas que normalmente
não nos eram perceptíveis. Ela falava de amor,... mas,
baixinho para a mamã não ouvir e, nós ali no meio do

passeio cheios de vergonha, a olhar  para cima na
tentava de correspondermos directamente às
mensagens labiais ou gestuais que elas nos
transmitiam umas atrás das outras. Por isso e nessa
situação, procurávamos a melhor posição no passeio
para as perceber melhor mas, encostados às paredes

só lhe víamos os queixos, no meio do passeio,  
éramos empurrados pelas pessoas que ali passavam,
no lancil da divisória do passeio dava muito nas vistas.
No entanto, ainda havia outros inconvenientes:
A vizinha de cima ou de baixo, sacudia os panos
de pó para cima  de nós. A vizinha do lado,

punha-se à janela descaradamente a ouvir as nossas
conversas. As pessoas que passavam disparavam
bocas foleiras. O cão da vizinha do rés-do-chão não
se calava. E mais uma catrefa de casos que
perturbavam o início daquele que poderia vir a ser
um grande amor.

Era uma situação muito ingrata que chegou a
meados do Século XX.


Outubro 2011
A. Sanches





domingo, 4 de setembro de 2011

QUANDO SE AMA - ACONTECE POESIA

AMAR...

É gostar e ter, é sonhar e convencer.
É sofrer sem saber, é correr mesmo sem o ter.
É a razão do seu ser, é a angústia de o crer.
É a desilusão ao saber, é o medo de o perder.


GOSTAR...

É confundir o imaginário, é pensar com alegria.
É pensar no seu diário, é escrever a fantasia.
É acreditar no secundário, é ver tudo com magia.
É a ilusão do terciário, é o esfumar com cortesia.


ACREDITAR...

È ter um grande amor, é nele ver o seu futuro.
É sofrer sem grande dor, é pensar que está seguro.
É ver tudo em seu redor, é o Sol, a Lua e o escuro.
É pensar no Redentor, é voar com seu amor puro.      

A.Sanches
Agosto, 2011

QUANDO SE AMA - ACONTECE POESIA

CHAMOSINHOS MEU AMOR

Minha terra é Chamosinhos,
que sempre trago no coração.
Com apenas sete caminhos,
e um largo para animação.

Tem um Cruzeiro no ar,
que é a nossa devoção.
Está virado para o Mar,         
não quer São Pedro na Mão. 

Dizem com desdém e desagrado,
que p’rá Galiza está virado.                 
Zangou-se com São Pedro,
por causa do São Tiago.

Tem o Rio chamado Minho,
com os pescadores a navegar.
Tem as terras do rei linho,       
tem as festas do espadelar.     

Teve o tio Joaquim Ferrador,
e a Tiana Maceiras também.               
Tem gente de grande esplendor,
abençoada terra que filhos tem.

Tem as vinhas do verdinho,                 
e campos de   milho também.
Tem as festas do São Martinho,
que nas desfolhadas convém.

Tem Novenas, Missas e Sermões,
para os livrar do inferno.
Tem as épocas dos serões,
nas noites frias do Inverno.
                                                         
Tem a Fonte ao pé da linha,
que centenas de anos tem.
Brota água cristalina,
que já não serve a ninguém.

A.Sanches
Agosto, 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

HOJE É O DIA DA CRIANÇA.

No meu tempo de criança, não havia um único dia que não fosse seu:
Era a manhã para ir à escola.
Era a tarde a para ir pastar as vacas.
Era ao lusco-fusco  para apanhar erva
Era a noite para apanhar uma sova.
Enfim: no meu tempo as crianças tinham sempre um dia para tudo.
Isto... quando não era tudo no mesmo dia.
No entanto, bem ou mal, todos os dias havia alguma coisa para comer.

Hoje festeja-se o Dia da Criança.
Felizmente que a maior parte das crianças de hoje já são tratadas como tal.
No entanto e bem perto de nós, há crianças que que são muito mal tratadas.

Por isso vou dedicar a todas as crianças do mundo este POEMA:


Sorrisos de criança são mel
Que adoça tanta vez o nosso fadário,
São pérolas, muito raras, dum rosário,
Rezado quando a vida sabe a fel.

São velas, muito brancas, dum batel
Vogando num mar calmo, imaginário,
São bálsamo p'ra dor, são um sacrário
Banhado com odor que a rosa expele.

São tudo o que na vida há de melhor,
São pão, são luz, são água de beber,
São estrelas que eluminam nossa esp'rança

Os risos desses anjos são de amor.
E eu choro meu bom Deus, só por saber
Que existe quem mal trate uma criança.


Camões.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

OLHANDO O MEUS PAÍS

O OVO

Na minha infância e até aos treze anos de idade, eu relacionava-me com os trabalhos de agricultura. No Lugar de Chamosinhos, à excepção de meia dúzia de homens que trabalhavam nas fábricas de serração, toda a gente trabalhava no campo. Como a minha mãe não tinha campos próprios para trabalhar, era convidada para trabalhar nos campos dos outros.Certo dia a Tia Ranhada chamou a minha mãe e outros, para a execução de várias tarefas: A minha mãe foi incumbida de cavar a vinha no lugar e depois, fazer o almoço para todos. Como sempre, quando a minha mãe trabalhava em casa da Tia Ranhada, eu era o convidado especial, por isso, todo o tempo que ela estava na Tia Ranhada eu andava por ali. Às vezes, sentava-me na eira a brincar com os pintainhos: Atirava-lhes alguns grãos de milho que ia buscar ao caniço. Depois, e enquanto eles picavam no chão todos desembaraçados a engolirem o milho, eu tentava apanhar um ou outro que estava mais distraído mas..., logo a mãe galinha se impunha e, sem medo, mandava-se a mim, mais parecendo um galo assanhado pondo-me em ‘sentido’.


Outras vezes, entrava no caniço e punha-me a espreitar pelas velhas ripas de madeira a chamar pelas galinhas, imitando a Tia Ranhada: “venham cá minhas meninas!... Venham cá!...”. Depois, era ver elas a aparecerem, vindas de todos os lados em grandes correrias em direcção ao local habitual que era a porta da cozinha. Mas, como não viam a Tia Ranhada e a porta estava fechada, ficavam por ali desorientadas correndo noutras direcções à procura do chamamento. Galinhas em casa da Tia Ranhada não faltavam.

Por isso, e na falta de outros entretenimentos, era com elas que eu me divertia. Ela tinha tanto amor às galinhas que raramente comia alguma. Eu nunca soube o que ela fazia a tantas galinhas. Certa vez estava eu sentado mesmo no meio da eira e, lá vem ela do lado do lugar com o avental cheio de qualquer coisa que não era milho. Assim que chegou à porta da cozinha e lá vem a cantilena: ‘Venham cá minhas meninas!... Venham cá...’.Num ápice ficou rodeada de galinhas por todos os lados.

Quando verificou que já lá deviam estar todas, despejou o produto que tinha trazido por cima delas e, o grande rebuliço começou. Umas a passarem por cima das outras empurrando-se mutuamente cacarejando todas ao mesmo tempo, era ver quem comia mais depressa. No entanto e no meio delas, fazendo como que um pequeno círculo, estavam dois ou três galos que disputavam o alimento com as galinhas.

Ai daquela que se chegasse ao pé deles levava logo a bicada respectiva na cabeça.Enquanto as galinhas comiam, a Tia Ranhada mantinha-se ali de pé no meio delas toda sorridente a ver toda aquela azáfama e burburinho. De repente, e com o aproximar de uma determinada galinha com penas diferentes das outras, ela baixou-se e apanhou-a pelas asas. Logo pensei cá para os meus botões: “Hoje, o almoço vai ser galinha!... Que bom!...”. Mas não, o almoço não foi galinha.

Qual o meu espanto, vejo a Tia Ranhada a passar a galinha para a mão esquerda e muito descontraidamente, fez deslizar a mão direita pelo lombo da galinha até ao rabo. Ali, e sem escrúpulos nenhuns, enfiou o dedo médio pelo rabo dentro da galinha, depois de o tirar, subiu a galinha até ao ângulo visual e, tal como se estivesse a falar para alguém que a entendesse, disse-lhe: “Bá... Já está na hora de ires pôr o ovo!... Mas não o comas... ouviste?...”. Dito isto, ala a galinha para o meio do chão.

Claro que a galinha não ligou nenhuma ao que ela lhe disse e, tal como as outras, continuou a picar no chão até este ficar completamente limpinho. Como a galinha era diferente das outras e eu até ouvi a recomendação, fiquei atento à sua postura. Passado pouco tempo vejo a galinha a correr em direcção ao galinheiro onde a esperava um ninho com um ovo todo ‘cagado’, que estava lá há mais de quinze dias e que, segundo ouvia dizer, servia de chamariz para a postura dos ovos naquele local. Sem dar nas vistas da galinha, lá fui espreitar para ver o que ela ia fazer depois de pôr o ovo. Uns minutos depois a galinha levantou-se, saiu do galinheiro e, como que a mostrar a sua alegria por ter posto um ovo, lá foi ela toda contente a cacarejar pela quinteira fora.

Logo que a Tia Ranhada ouviu o cacarejar da galinha, não perdeu tempo e foi ao galinheiro buscar o ‘ditoso’ ovo. Quando saiu do galinheiro ela trazia o ovo na mão mas, de repente lembrou-se de qualquer coisa, meteu o ovo no bolso de uma camisola velha que trazia vestida e, em vez de ir arrumar o ovo a casa, dirigiu-se ao caniço. Como os pintainhos andavam dispersos no meio da eira, ela pegou numa vergasta e pôs-se ali a tentar juntá-los não sei para quê. Só que os pintos não lhe obedeciam e quando ela se deslocava para um lado todos fugiam para o outro. Mas a Tia Ranhada queria que eles lhe obedecessem e por isso, usava todos os estratagemas para tal mas... Os pintos não lhe tinham respeito nenhum e por isso, quanto mais ela tentava juntá-los mais eles se dispersavam. Andava ela naquela azáfama e, sem saber como, o raio do ovo que tinha no bolso da camisola saltou e estatelou-se no meio da eira, mostrando aos pintainhos o quanto de amarelinho era a sua gema.

Os pintos ao verem tal petisco estiveram-se nas tintas para a Tia Ranhada. Rapidamente se uniram e fizeram daquele momento o grande festim do ovo acabadinho de pôr. O mais incrível foi os lamentos da Tia Ranhada. Não era pelo ovo partido mas sim, pelo hábito que aquele momento poderia incutir naqueles pequerruchos que se deliciavam com um ovo pela primeira vez. Ao ver a cena em que os pintos se atropelavam uns aos outros para dar a sua picadela no sítio onde o ovo se partiu, a Tia Ranhada pôs as mãos nos queixos e disse:

Deixem-se estar meus meninos que amanhã já não comem mais nenhum, podem crer.

Será que os pintos enjoaram os ovos?...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

OLHANDO O MEU PAÍS

A PÁSCOA EM CHAMOSINHOS

Na Quinta-feira da Semana Santa, por volta das 11 horas da manhã, tocava o sino a rebate anunciando a Morte do Senhor. As fábricas da Veiga e do Monte associavam-se a este sinal através dos seus apitos que, juntos, se ouviam em toda a Freguesia. Ao fim de quinze minutos, entravam em silêncio total. Este silêncio era mantido por todos, até à manhã de Sábado.

SÁBADO DE ALELUIA.
Voltavam a tocar os Sinos e as fábricas. Mas o tom agora já era de alegria e festa. Anunciava-se assim a RESSURREIÇÃO DE CRISTO, nos anos 50. À Época, a Páscoa em Chamosinhos era vivida com muita Fé e Alegria. No Sábado de Aleluia, havia grande empenhamento das donas de casa em preparar as suas habitações para receber o Sr. Padre com a Cruz ricamente enfeitada. Ricos e pobres, todos abriam as portas à Cruz. Os mais abastados presenteavam o Senhor Padre com o que podiam. Dos pobres, o Senhor Padre não esperava nada, porque nada tinham. Mas até parecia que, quando entrava nessas humildes habitações, a Bênção que ele dava tinha mais significado.

Para a canalha, Páscoa era o tempo das amêndoas. A Visita Pascal a Chamosinhos durava um dia e começava na Ponte. Sempre que conseguia, eu acompanhava a Cruz a todas as casas. O meu objectivo eram as amêndoas. A última habitação a ser visitada era a da tia Constância. Era nesta casa que o Sr. Padre descansava um pouco num grande cadeirão que sempre o esperava no final do Compasso. Também era na casa da Tia Constância que os pescadores de Chamosinhos convidavam o Senhor Padre a levar a Cruz aos Montorros para ali Abençoar barcos e redes.

Depois embarcava no Carocho maravilhosamente engalanado que, na companhia de quase todos os barcos dos Montorros, se afastavam das margens do Rio Minho. No ponto certo, os pescadores lançavam as redes à água. Depois da volta ao meio do Rio, voltavam. Chegados a terra firme, era ver a maior parte das pessoas que acompanhavam o Compasso até aos Montorros, a puxar as redes e ver o que nela tinha sido pescado. O resultado da pesca era ali leiloado e revertia totalmente para a Igreja.

Era um momento de alto significado que, a Igreja e os habitantes do Lugar de Chamosinhos, viviam num local Paradisíaco: MONTORROS.

E hoje!... Será assim?...  Hoje não há Sinos a tocar às 11 horas de Quita Feira Santa. Também não se ouvem os apitos das Fábricas que, por sinal, só existe uma e já deve ter perdido o apito. Nas habitações, na sua maioria reina a indiferença. O Sr. Padre já não vai com a Cruz a Chamosinhos. Manda um representante. A maioria das habitações já não abre as portas à Cruz. Até a canalha já não sabe que, Páscoa quer dizer amêndoas.

Em suma:  O Largo de Chamosinhos perdeu na totalidade todo o entusiasmo Pascal que era vivido noutros tempos.
Porque será?...